segunda-feira, 6 de julho de 2009

A crônica nossa de cada dia ( Luiz Carlos Amorim )


Gosto de ler e admiro o escritor que consegue ser objetivo, com vocabulário claro e apropriado, sem se perder em excessos narrativos e descritivos ou no emprego de palavras rebuscadas e fora de uso.

Sempre fui leitor crônico de romances, contos e poemas e descobri, há algum tempo, a crônica. Adoro a crônica, mas detesto aquelas massudas, extensas, esticadas demais, quando poderiam ser bem mais enxutas, elegantes, se dissessem apenas o necessário para transmitir a sua mensagem.

Há quem pratique o gênero e ache que escrever bem significa produzir textos imensos, perder-se em divagações inúteis sobre um determinado tema. E ainda usando “palavras difíceis”, na ilusão de que isso enriquece o texto. Isso me lembra de um “escritor” que conheci – e que felizmente não escreve mais ou, pelo menos, não tem publicado – que escrevia a sua crônica e depois de pronta, ia ao dicionário e trocava umas quantas palavras usuais e inteligíveis por outras, fora de uso e desconhecidas. Ele achava que isso transformava o seu texto em grande obra. Ora, o texto já era ruim: tema mal definido, mal desenvolvido, com vocabulário simples, quase vulgar, pouco conhecimento de regras gramaticais. Imagine um texto assim, salpicado de “palavras difíceis”. Se esse “escritor” produzisse poesia, com certeza usaria rima – e seria uma rima muito pobre!

Mas, como dizia, gosto do texto claro e saboroso, rápido mas denso, com conteúdo, aquele que diz apenas o necessário para comunicar com eficiência. Um texto não precisa ser extenso para ser bom. E se ele for mais longo porque havia necessidade disso, por imposição do tema, do desenvolvimento do assunto, sem deixar de lado a objetividade e a dinâmica da palavra, deverá ser interessante e gostoso de ler como se fosse curto.

Comunicar idéias é ser conciso, claro, com linguagem atual e bem articulada, é conversar com o leitor sem menosprezá-lo, sem querer apenas impressioná-lo. É colocar temas em discussão contando a sua verdade, aceitando que ela pode ou não ser a verdade do leitor, e assim dar oportunidade para que novas idéias venham à tona.

A nova literatura ( Luiz Carlos Amorim )


A literatura é uma arte que tem fortes representantes em Santa Catarina. Talvez não seja correto rotular a literatura produzida aqui como catarinense, mas ela tem autores com qualidade e representatividade.

A projeção catarinense na literatura brasileira começa com o ícone maior da poesia simbolista, Cruz e Sousa, nascido em Florianópolis, antiga Desterro, de reconhecimento universal, ainda que póstumo. Sua poesia foi traduzida e publicada em vários países.

A perfeição dos poemas de Cruz e Sousa já fez com que o comparassem a Baudelaire e o colocassem ao lado de Mallarmé.

Seguem-se-lhe Virgílio Várzea, que publicou em parceria com Cruz e Sousa “Tropos e Fantasias”, a estréia do Cisne Negro na literatura, e Luiz Delfino.

Existem, também, os escritores catarinenses contemporâneos, aqueles que já têm uma obra conhecida e consolidada e ultrapassaram as fronteiras do nosso estado. Alguns deles projetaram-se em nível nacional, mas nem sempre estão radicados aqui no estado. Nomes como Lindolfo Bell, Guido Wilmar Sassi , de grata memória, Cristóvão Tezza, Deonísio Silva, Silvio Back, Werner Zotz, são exemplos de escritores catarinenses de renome nacional.

Existem os contemporâneos do estado, que se concentram, quase todas na capital, mas não é deles que o livro “A Nova Literatura Catarinense”, em lançamento, fala. Uma nova edição da obra, atualizada, estará sendo publicada e colocada à venda pelo Clube de Leitores ( www.clubedeleitores.com.br ) nos próximos dias.

No livro estão os escritores que produzem em outros pontos de Santa Catarina, que têm sua obra publicada, têm uma bibliografia considerável, em quantidade e qualidade, têm livros com várias edições, apesar de não estarem, a maioria deles, aparecendo nas vitrines ocupadas pelas figurinhas carimbadas.

Nomes que começaram e ainda estão no Grupo Literário A ILHA, ou transitaram por ele, como Apolônia Gastaldi, Else Sant´Anna Brum, Enéas Athanázio, Joel Rogério Furtado, Maicon Tenfen, Eloí Elisabet Bocheco, Rosângela Borges, Urda Alice Klueger, Viegas Fernandes da Costa, Wilson Gelbcke, Harry Wiese, Selma Maria Franzoi, Aracely Braz, Maria de Fátima Barreto Michels e tantos outros.

São os escritores que se impõe por seu talento, dedicação e perseverança e vão se revelando bons cultores da palavra, conquistando respeito e reconhecimento pelo mérito de sua obra.

Saudade ( Luiz Carlos Amorim )


Não quis dizer solidão. É que o inverno chegou e uma saudadezinha escondida insiste em levantar a voz. Saudadezinha doída, vem me lembrar, atrevida, que amor a gente não esquece. Que cada carinho é um carinho, que cada ternura é só uma, que amor não morre jamais.

E eu preciso de você. Porque gosto de você. Sei que já disse isso, mas eu gosto de você. Junto de você, gosto do frio que aconchega, gosto da chuva lá fora, a ninar nossos sonhos. E gosto do seu sorriso.

Seu sorriso, minha musa, é minha casa, o meu mundo, o meu tudo. É minha luz, porto seguro, o meu horizonte, infinito. Seu sorriso é minha vida.

Seu sorriso é boa vinda, é ternura do aconchego, é calor que me aquece. Seu sorriso é primavera que se espalha por seu rosto e sorri a sua boca e sorri o seu olhar e sorri seu coração e sorri a sua alma...

Ah, o seu sorriso... é meu ponto de partida e meu ponto de chegada...

Como vou fazer poesia, se o seu sorriso tão meigo é o verso mais bonito que jamais vou escrever? Minha poesia é você. Pra que então escrevê-la? Fiz-me poeta em você, poeta em seu amor... Vem comigo, minha musa, vem morar neste poema...

Este poema, seus olhos, imenso poema de amor. Vejo nós dois espelhados, nos grandes lagos castanhos cristalinos, os seus olhos. Navegamos mansamente, nas serenas águas claras, cheias de luz e poesia. É nossa grande viagem, percorrendo os caminhos que nos levarão de encontro à descoberta de nós.

Então vem, e afugenta a saudade vadia, que passeia insistente, pelo fundo dos meus olhos. Vem mandar embora essa saudade que brinca com a tristeza que transcende o meu olhar, tentando invadir meu coração para matar todas as flores que você desabrochou em mim...

Os livros recolhidos e a desculpa do estado ( Luiz Carlos Amorim )


Sou obrigado a voltar ao assunto. Lembram do meu artigo sobre o escândalo dos 130.000 livros comprados pelo Estado de Santa Catarina, por um milhão e meio de reais e que depois foram recolhidos? Pois é, a história estava mal contada e continua sem explicações.

Li, em 2 de junho, uma matéria de grande jornal sobre a polêmica do recolhimento, pelo Estado, dos 130.000 livros que haviam sido comprados e distribuídos às escolas públicas de segundo grau.

Nessa mesma matéria, há a informação de que “a compra dos livros ocorreu por meio da lei que determina que o Estado adquira livros de autores da terra, selecionados pela Comissão Catarinense do Livro, para bibliotecas municipais catarinenses.”

Há que se esclarecer alguns pontos sobre essa afirmação prestada ao jornal. Primeiro, a lei Grando, que é a lei mencionada, não foi cumprida até agora, apesar de ter sido promulgada há quase vinte anos. Segundo, para comprar livros através dela é necessário que se publique o edital para seleção dos livros a serem comprados. E o primeiro edital da Cocali para começar a cumprir a Lei Grando só está saindo publicado agora, com início de inscrições no dia 8 de junho. Terceiro, o edital é para aquisição de 300 (trezentos) exemplares de dez obras que serão selecionadas e não 130.000 (cento e trinta mil).

Como já perguntei em outro artigo, desde quando o Estado compra livro indicado para o Vestibular para cada um dos alunos do segundo-grau da escola pública catarinense?

De quem partiu a idéia de comprar essa quantidade imensa de exemplares de uma mesma obra, sem ao menos lê-la para saber se era apropriada, provocando o recolhimento e transformando em pó um milhão e meio de reais, dinheiro tirado do imposto suado pago pelo cidadão catarinense? Quem autorizou esse gasto? E a tal licitação, que foi citada pela Secretaria de Estado da Cultura em todos os jornais, há alguns dias, dá a idéia de que havia pelo menos três editoras publicando e vendendo o livro, o que não é verdade. A editora é uma só.

Então toda essa história está muito mal contada. Usar a Lei Grando como desculpa não está colando.

O Estado e o escândalo dos 130.000 livros ( Luiz Carlos Amorim )


Eu já ouvira alguma coisa na televisão, ontem, mas pela metade. Então hoje, ao abrir o jornal, encontrei a reportagem sobre o livro de Cristóvão Tezza, que foi recolhido das escolas pelo Estado. O livro “Aventuras Provisórias”, que tinha sido comprado pela Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina e distribuído às escolas estaduais de ensino médio, foi recolhido por conter trechos considerados inadequados a alunos do segundo grau.

Até aí tudo bem, Cristóvão Tezza é um escritor de renome nacional, consagrado, mas se alguma coisa no livro não é apropriado aos estudantes do ensino médio, se o livro é indicado para adultos, que se use bom senso. O autor, catarinense, não precisa mais que o Estado compre tiragens inteiras do seu livro, porque ele vende por si próprio.

O que nos deixa indignados é o fato de a Secretaria de Estado da Educação ter comprado 130.000 (cento e trinta mil) livros, pela bagatela de Cr$ l.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais), quando os escritores catarinenses vêm batalhando há quase vinte anos pelo cumprimento da famigerada Lei Grando, instituída pelo próprio estado. Essa lei determina que o estado compre livros de autores da terra, previamente selecionados pela Comissão Catarinense do Livro, para distribuição às bibliotecas municipais catarinenses. A referida lei regula a obrigatoriedade da compra, pelo estado, de 300 (trezentos) exemplares de 22 (vinte e dois) livros publicados por autores catarinenses, a cada ano, adquiridos com 50 % (cinqüenta por cento) do valor da capa.

Então, para cumprir a Lei Grando, não há verba, não coube no orçamento, ano após ano. Mas para comprar cento e trinta mil livros a um milhão e quinhentos mil reais, aí sim, deu. E sem nenhuma divulgação, porque não vi em lugar algum notícia sobre a compra.

E desde quando o estado de Santa Catarina compra livros selecionados para o vestibular, aos milhares, para distribuir aos estudantes da rede estadual de ensino médio?

E não venham usar como atenuante o fato de a Fundação Catarinense de Cultura estar para publicar edital da Cocali, para aquisição de livros de autores catarinenses e posterior distribuição dos mesmos para bibliotecas municipais, começando, assim, a cumprir, finalmente, a lei que já quase completa maioridade, sem sair do papel.

Enquanto o escritor catarinense mendiga o cumprimento da Lei Grando para ter a possibilidade de que o estado compre a sua obra e faça chegar pelo menos um exemplar a cada biblioteca pública de cada cidade de Santa Catarina, esse mesmo estado compra, silenciosamente, cento e trinta mil livros de uma mesma obra, de um mesmo autor, para cada estudante do nível médio. Livro que em seguida foi recolhido. O que será feito deles? E todo aquele dinheiro pago por eles é imposto pago pelo contribuinte. Que estado é esse? Que educação é essa? Que cultura é essa?

Contatei com escritores catarinenses importantes, como Urda A. Klueger e perguntei se o Estado alguma vez comprou-lhes livros. Ela me confirmou que não, coisa que eu já sabia, pois estamos esperando pelo acionamento da Lei Grando.

Nada contra o escritor Cristóvão Tezza, um autor que honra a literatura de Santa Catarina, mas há que haver justiça, há que haver transparência e coerência na administração pública catarinense.

A rota das cachoeiras de Corupá ( Luiz Carlos Amorim )


Fiz, finalmente, a rota das cachoeiras de Corupá, nordeste de Santa Catarina, no final de abril. Apesar do pouco volume de água, em razão da estiagem na região, a beleza que transborda os olhos e a alma da gente é incomensurável. Eu já tinha ido até a terceira cachoeira, quando a rota era mais íngreme, mas agora pude visitar quase todas.

A primeira cachoeira, que podemos ver sem começar a subida da trilha é a dos Suspiros, belíssima. A segunda, Cachoeira da Banheira, por ter uma verdadeira piscina na sua base, também é bem grande e extasia o visitante. A terceira é a Três Patamares, quedas menores em seqüência, nem por isso menos belas. Pousada do Café é a quarta cachoeira e tem esse nome porque é onde os turistas param pela primeira vez para fazer um lanche e admirar a beleza das águas. A quinta, Cachoeira do Repouso, tem esse nome porque conta com uma grande lage de pedra ao seu lado, onde se pode parar para descansar e aproveitar o espetáculo que se descortina diante dos olhos.

Cachoeira do Remanso é a sexta delas, com pouca altura, suas águas caindo tranqüilas formando outra piscina. As sétima e oitava cachoeiras são duas cachoeiras que se encontram e por isso chamam-se Cachoeiras da Confluência. A nona cachoeira é a da Corredeira e tem esse nome porque são quedas em degraus, menores. Talvez porque a água não escorra pela rocha, descendo em queda livre e caindo sobre a base ou porque o terreno é acidentado e possa derrubar o visitante, a décima é a Cachoeira do Tombo. Cachoeira do Palmito é a décima primeira e o nome lhe foi dado devido a um palmiteiro que se curvava sobre a grande queda d´água. A décima segunda é a Cachoeira Surpresa, pois aparece de repente, logo após uma curva no caminho, revelando um dos mais belos espetáculos da rota.

Não consegui ver a décima terceira, a Cachoeira do Boqueirão, porque estava fechada. E então andamos, cansados, mais um bom tanto de caminho para que então se descortinasse frente aos nossos olhos a décima quarta, a Cachoeira do Salto Grande, com 125 metros de queda livre.

Valeu o cansaço da subida, pois a beleza que se vê é alguma coisa fantástica, que excede qualquer expectativa.

Infelizmente, não dá para falar apenas das belezas das quedas d´água, quatorze delas, uma mais bela do que a outra. O parque Rota das Cachoeiras é uma reserva natural, mas pertence ao Grupo Battistela, é particular. Há quatro anos, começaram a cobrar ingresso para aqueles que quisessem visitar o lugar, fosse para fazer a trilha das cachoeiras ou apenas visitar a primeira, que fica na base da rota e não é preciso subir para vê-la. Perguntei ao rapaz que ficava na entrada do parque para conferir os ingressos, o que era feito com o dinheiro arrecadado. Ele me disse que todo o dinheiro é usado na manutenção do parque. Eu perguntei a ele em que manutenção. Porque a impressão que se tem, antes de começar a subir a trilha, é que aquilo está abandonado.

O restaurante que havia lá em cima, na base da trilha, não existe mais. Nem a janelinha onde vendiam água mineral e refrigerantes. Os quiosques que poderiam estar oferecendo lembranças da região, camisetas, artesanato, comidas típicas, sei lá mais o que, estavam todos fechados, e não é de agora. A área de churrasqueiras, com mesas e bancos, está lá, em pé, mas o madeirame está apodrecendo. Os banheiros, pelo menos os dos homens, estavam em obras. Mas mesmo as pias e mictórios, que deveriam estar funcionando, estavam todos entupidos, transbordando. Soube que o banheiro das mulheres estava parecido.

Quiosques que existiam pelo mato, com infra-estrutura para se fazer um churrasco, estão no chão, o material empilhado apodrecendo no tempo.

A trilha, até a quarta cachoeira está uma beleza, tem degraus para a subida e até corrimão para maior segurança dos turistas. Mas depois da quarta cachoeira a segurança já não é mais tanta e o visitante cansado tem que tomar cuidado para não escorregar, senão cai pela ribanceira. A 13ª cachoeira está fechada há semanas e não há indicação do que aconteceu ou quando vai ser reaberta.

Então que manutenção é essa? Antes de cobrarem ingresso o parque era mais cuidado.

É uma pena que não se explore todo o potencial turístico da região. Para se ter uma ideia, naquele domingo em que estivemos lá havia centenas de pessoas pagando ingresso. A cinco reais cada uma, o valor arrecadado só naquela oportunidade daria para fazer muita melhoria no lugar.

A natureza tem queda por Corupá. Mas parece que algumas pessoas não estão percebendo isso e já faz muito tempo.

Os melhores amigos ( Luiz Carlos Amorim )


Pituxa, a nossa pinscher Xuxu, tem quatorze anos. Quase não enxerga mais, talvez já não ouça bem, também. Mas é a nossa menina. Quando a gente está em casa, ela está sempre procurando alguém em quem se encostar. Não reconhece a gente de pronto, quando chegamos em casa, mas faz uma festa quando ouve a nossa voz.

Ocorre que eu e Stela viajamos e ficamos quase um mês fora. Fomos a Portugal, para conhecer a terrinha e sempre mantivemos contato com as filhas, que ficaram em casa. E soubemos que Pituxa não comeu por três dias, depois que saímos. Mas isso não foi o pior: ela ficou dias a fio de plantão, sentadinha em frente ao portão da garagem, esperando que chegássemos. Dava vontade de voltar, ao saber disso.

Quando chegamos ao aeroporto de Florianópolis, ela estava lá esperando, junto com o resto da família. Ela não deve ter entendido porque ficamos tanto tempo longe, mas agora fica mais desesperada quando a gente começa a arrumar malas para viajar.

Não resisti ao registro do fato, pois encontrei um outro bichinho parecido com Xuxu em Coimbra e queria poder falar dela também. Tratava-se um uma chiuaua (ou chihuahua), de pelo avermelhado, pequena, devia pesar um dois ou três quilos. O seu dono era um tocador de violão que, enquanto tocava, colocava-a sentada a sua frente, imóvel, com um porta- -moedas pendurado no pescoço. Havia uma cesta, também, para quem não quisesse colocar as moedas a fazer peso no pescoço da cachorrinha. Ela era mantida em uma coleira e de vez em quando o dono a puxava, para mudar de local e de público. Perguntei a idade dela e ele me disse que ela tinha nove anos. Perguntei se era mansinha, se podia fazer um carinho, ele disse que sim. Tentei passar a mão em sua cabeça, ela até deixou, mas encolheu-se, assustada, como se eu fosse machucá-la. Não falei nada, mas pensei que ela poderia ter sido maltratada para se submeter àquele trabalho. Espero estar errado.

Fiquei comparando a nossa Pitucha, cercada de tanto carinho, com aquela cadelinha que era obrigada a trabalhar. E imaginei a chiuaua (ou chihuahua) na rua, com os dias frios que estavam por vir em Portugal, que agora está na primavera, mas já conta com algumas temperaturas que exigem agasalho. E olhem que a menininha ajudava o rapaz a ganhar a vida.

Portugal, Terra irmã ( Luiz Carlos Amorim )


Estive alguns dias em Portugal, coisa que tinha o desejo de fazer há um bom tempo. Passeei por Lisboa, Cidade do Porto, Coimbra e outras cidades menores. Fiquei impressionado pelas partes antigas das cidades, com a belíssima arquitetura, com a manutenção de tudo. A parte nova ou moderna de Lisboa me encantou, pelo toque futurista, como na entrada da estação Oriente do metrô. As pessoas, em geral muito educadas, são às vezes mais expansivas, como o brasileiro, deixando-nos muito à vontade.

Conversando com moradores de Lisboa e da Cidade do Porto, percebi algumas diferenças na maneira de falar. Notei que algumas pessoas puxam mais pelo xis, como no caso de palavras que tem sc, por exemplo “nascer”. Mas isto é apenas curiosidade.

O que me chamou atenção, mesmo, foi a não adesão dos portugueses, ainda, ao Acordo Ortográfico. A começar pela fala cotidiana, passando pela televisão (não ouvi rádio) e até mesmo nos jornais. A acentuação gráfica continua sendo usada como era antes e o “c” e o “p”, por exemplo, de palavras como “actual” e “óptimo”, que com a nova ortografia caem, continuam sendo falados e escritos.

Aliás, os portugueses demoraram mais do que qualquer outro país lusófono a assinar o novo acordo e pelo que ouvi em conversa por lá, eles não viam e não vêem com bons olhos a reforma. No Brasil, onde as mudanças são menores, achamos que a reforma era desnecessária, imagine-se Portugal, onde a reforma é mais ampla.

Existem muitas palavras corriqueiras no vocabulário português que têm outro significado aqui no Brasil ou que não são usadas por nós. Como o caso de “fila”, existem muitas outras palavras. Então fico imaginando que a unificação da língua portuguesa, objetivo da reforma ortográfica, nunca vai se efetivar, não sei se felizmente ou infelizmente.

E já que falamos em jornal, li os grandes jornais portugueses e não pude deixar de verificar alguma diferença em relação aos nossos. Os jornais de lá são grandes, têm muitas páginas, mas tudo é informação, é notícia. Não tem muito aquela coisa de coluna social, por exemplo, que lotam os cadernos de variedades por aqui. Para assuntos como televisão, cinema, música, teatro, arte enfim, alguns deles publicam revistas, que vêm encartadas, fazendo parte da edição normal do jornal.

Gostei das livrarias em Portugal, elas existem lá mais do que aqui e são bem amplas. O preço, convertendo os euros para cruzados, é mais ou menos igual. Vi que as pessoas lêem bastante. Havia gente lendo no metrô, no ônibus, em praças...

Saindo das letras e enveredando pela gastronomia, não dá pra deixar de falar no pão que se faz em Portugal. É uma variedade grande de pães e todos eles são muito gostosos.

No mais eu quis comer bacalhau, enquanto estava lá. Em Lisboa, os pratos de bacalhau são praticamente os mesmos em qualquer lugar que se vá e, como aqui no Brasil, não tem muito bacalhau, o que tinha mais era batata. Bolinho de bacalhau é mais difícil de encontrar do que aqui, e não se chama bolinho, mas pastel de bacalhau. E também tem pouco bacalhau, pelo menos os poucos que encontrei, procurando muito. Já em Coimbra comi um bom bolinho de bacalhau e um excelente prato à base de bacalhau. O queijo feito com leite de cabra, de vaca e de ovelha é excelente. E o pastel de Belém também.

No mais, tomei muito vinho. Vinho verde, vinho do porto, vinho de todos os tipos e de muito boa qualidade. E naveguei no Tejo. Só não encontrei lá em Lisboa a minha amiga escritora Apolônia Gastaldi, brasileira aqui de Santa Catarina, que agora mora lá, mas acho que coincidentemente ela tinha vindo ao Brasil na mesma época em que fui para lá.

O Livro e a Internet ( Luiz Carlos Amorim )


Ouvi, há bastante tempo, num telejornal, uma notícia que me deixou feliz, mas ao mesmo tempo descrente: a venda de livros infanto-juvenis, no Brasil, subiu 50% (cinqüenta por cento!). Só que este índice fabuloso, segundo a notícia, era creditado à Internet. E foi este crédito que tornou discutível a informação. Está certo que a Internet facilita a divulgação de quase tudo o que é publicado, tanto no suporte tradicional, o livro impresso, como em outras mídias, proporcionando maiores opções de escolha. Mas daí a dizer que foi ela quem provocou um aumento tão significativo nas vendas, pode caracterizar algum exagero.

A Internet é um recurso tecnológico valioso na pesquisa de qualquer assunto e uma ferramenta insubstituível nos dias atuais. Mas é sabido, também, que os adolescentes que têm acesso, não vão à rede procurar novos títulos para ler, com raras exceções.

Eles participam de bate-papos em salas de chat, no orkut, skype e outros programas de comunicação, participam de jogos on-line, capturam e trocam músicas, navegam ao sabor dos sites. O que é natural, diga-se de passagem, mas isso ocupa um tempo que poderia ser usado para ler, por exemplo. É, portanto, temeroso, creditar à Internet o crescimento do índice de leitura em crianças e adolescentes.

Acredito que o índice de cinqüenta por cento no incremento da venda de livros infanto-juvenis pode ser correto, pois como já escrevemos em outra oportunidade, o que vimos nas últimas Bienais do Livro (e muitas feiras do livro) ajuda a corroborar isto: famílias inteiras foram à feira, pagando ingresso para poder comprar livros e saíam de lá sempre com algum título nas mãos. E quando digo famílias inteiras, quero dizer pais com os filhos – crianças, jovens, adolescentes.

Interessante que, poucos dias depois de ouvir essa notícia, leio numa dessas revistas semanais de informação, uma matéria de capa a respeito de pesquisa sobre leitura, que veio de encontro àquilo que havíamos concluído: o brasileiro gosta de ler. Ele pode até não ter dinheiro para comprar livros, mas gosta de ler.

De acordo com a pesquisa, 78% de cinco mil, quinhentos e três pessoas consultadas em quarenta cidades brasileiras, gostam de ler livros – e há que se considerar que esta é uma esmagadora maioria daqueles que responderam ao que foi perguntado.

Outra descoberta interessante é quanto aos gêneros preferidos por esse índice de 78 % das pessoas entrevistadas, que tinham idade a partir de quatorze anos. Vinte e nove por cento prefere a literatura classificada como adulta pela pesquisa, onde se inclui ficção, história da literatura, ensaios, poesia.

A literatura infanto-juvenil quase não aparece nesta pesquisa, pois os entrevistados tinham a partir de quatorze anos: apenas quatro por cento. Mas se as vendas dos livros infanto-juvenis cresceram cinqüenta por cento – e sabemos que este gênero é um dos que mais vende, nos últimos tempos – em se baixando o limite de idade para sete anos ou menos, na referida pesquisa, o índice seria muito maior.

segunda-feira, 20 de abril de 2009

Os Muppets e o Brasil ( Bruno Peron Loureiro )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 31/03/2009


Nenhum outro programa de televisão, por mais mirabolante que seja, despertou-me tanta atenção e encanto como a série “Os Muppets” ou “The Muppet Show” do nome original. Sempre me apressava para sintonizar o canal e vislumbrar os novos episódios na minha infância. Punha a almofada no chão e me acomodava nela.

O atrativo era a combinação entre bonecos e seres humanos na mesma cena, que usurpavam o mundo um do outro e confeccionavam uma interação inovadora naquele momento. Fantasia e realidade, imaginação e concretude se confundiam com a atuação dos personagens Caco, Piggy, Fozzie, Gonzo, Animal, entre outros.

E o que esta série tem a ver com o Brasil se nem havia sido criada aqui? O paralelo que traço parte do cenário realista pressagiado por uma professora de português que tive, aos catorze anos, ao afirmar diante dos alunos em uma de suas digressões: “Vocês vão ver cada coisa lá fora...”. Nunca mais esqueci este alerta. Ele teve impacto. A escola é um ambiente de harmonia artificial entre fantasia e realidade. Mais ainda na infância. O que prescrevem as apostilas são frases soltas sobre um mundo em conflito permanente.

A vida lá fora confirma a digressão da minha professora. Penso, entre outras injustiças que se celebram com indiferença, nas desigualdades que assolam o país e no contraste temporal em que vivem os segmentos sociais. Basta percorrer as periferias de cidades médias e grandes para notar a falta de infra-estrutura, o desemprego, o abandono, o significado do racismo e a desinformação. Realiza-se nelas o sonho de possuir carros que há vinte anos somente eram acessíveis a poucos, entre outros bens de consumo que dão a aparência de democratização quando saem de moda e se desvalorizam. Dois mundos que se imbricam.

Os avanços tecnológicos e o liame da modernidade tardam para alcançar as maiorias. Um dirige o carro do ano, enquanto outro limpa seu pára-brisa no semáforo e guarda-o contra furtos. A escola privada é para a minoria, enquanto os demais assistem à deterioração da pública, entre outros prejuízos que tem sofrido a garantia coletiva. O sonho de consumo de alguns é praxe para outros. Dizer somente que o Brasil está dividido em regiões é reducionista. O país, em vez, é um arquipélago de vidas que se encontram casualmente, mas não se reconhecem. Os Muppets representam este jogo entre dois universos. Boneco e realidade. Riqueza e pobreza. Inclusão e exclusão.

Eu gostava tanto da série, que até me presentearam um boneco do Caco, que é o que tem forma de sapo. O encanto me obrigou a guardá-lo de recordação. Tenho-o até hoje. Porém, o uso excessivo naquele momento, o desgaste do tempo, o reconhecimento da realidade e o desencanto de Caco com o que ia encontrando fê-lo perder os olhos, sofrer uns arranhões, torcer um braço, emagrecer por perder muitas bolinhas de isopor que o preenchiam. O eco da realidade e seu arquipélago o extenuaram. Ainda assim ele resiste. E o Brasil não perde a esperança.

Casas fantasma ( Pedro Cardoso da Costa )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Pedro Cardoso da Costa ( Bacharel em Direito ) :: 29/03/2009


Funcionários fantasma é mais comum do que verdadeiros. Contas fantasma nem se fala. O fantasma no Brasil predomina. É o único país onde fantasma existe de fato. Agora, o plano de um milhão de casas para solucionar um déficit de 8 milhões é a coisa mais fantasma que já apareceu no Brasil, principalmente, pelo tamanho dele.

De novo, a imprensa não questiona como criar mecanismos para bloquear o crescimento do déficit e continuar com uma redução gradativa até zerar. Todo debate ficou na cantilena do um milhão, um milhão... sem definição do onde virá o dinheiro total, sem regras definidas, sem critério de escolha de quais estados e cidades serão beneficiados e nem sequer com um terreno acertado. Desta vez é o próprio governo que patrocina casas no espaço.

Um lançamento além de pomposo. Autoridades presentes; muita discussão sobre nada e análises sobre nenhuma base efetiva. Retórica que faz parte da cultura nacional de resolver todos os problemas com escritos em papel. Ora numa lei, numa resolução ou num projeto. Agora o presidente avançou. Nem papel. É mesmo a construção verbal de um Milão de casas.

Depois do lançamento, nenhuma autoridade ousaria mencionar um local onde estivesse um projeto de compra; nem uma construtora habilidade; nenhuma licitação. Nada, absolutamente nada de concreto. Mas todos os jornais gastaram manchetes com esse fabuloso plano de moradia.

Como regra, a primeira necessidade de moradia decorre da formação de família desestruturada. Uma ou outra pessoa mora sozinha, mas geralmente por escolha subjetiva e essa pessoa consegue a casa sem necessidade de amparo estatal. Grande parte dos oito milhões precisa de moradias governamentais porque constituiu família sem nenhuma estrutura. Caberiam aos governos, todos, projetos efetivos de planejamento familiar, com linguagem incisiva e permanente sobre a necessidade de criar estrutura material mínima, como moradia e emprego, antes de formar uma família. Ou o Estado secará gelo eternamente. Constrói um milhão, enquanto surge a necessidade de mais dez. E o déficit só crescerá.

Coroou o vácuo desse bolo a menção do presidente de que não há prazo para entrega. Trata-se do único acerto. Não poderia haver previsão para entrega de nada. Os assessores do presidente Lula deveriam orientá-lo a evitar esse linguajar simplório e, às vezes, sem sentido. Esse desprezo à inteligência geral fere o bom senso e o cidadão.

Siga esse exemplo do presidente e resolva problemas domésticos. Dê um apartamento, um astra novo, um barco, e até um helicóptero aos filhos. Logo eles quererão saber quando vão receber. Responda que seria no dia que o presidente definisse prazo para a entrega da casa de número um milhão. Eles preferirão presentes mais simples com prazo de recebimento.

A razão do vandalismo (Bruno Peron Loureiro)


Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 26/03/2009


O que faz alguém praticar atos de vandalismo? Estas ações criminosas partem somente das camadas mais pobres da população? É justo que um indivíduo ou um grupo destrua e manche com o pretexto de que se manifesta a favor de alguma causa? O vandalismo é só aquilo que se pratica contra bens públicos? Existe uma maneira de combater esta prática predatória no Brasil, ainda que contemos com instituições débeis de segurança pública?

A maneira mais eficiente que encontrei para esta discussão é a formulação de perguntas, uma vez que queremos saber o que é o vandalismo, o que induz a praticá-lo e como se reduzem os números desta atividade que provoca o desgosto na população. A intervenção de psicólogos tem sido proveitosa para conhecermos o assunto, porém o desacordo a que chegam é o de que há várias explicações para atos vândalos.

O pichador não costuma ser o mesmo que destrói o assento do ônibus, pois seguem motivações distintas. A definição de vandalismo é difícil de alcançar porque o que é arte para um não passa de depredação para outro. Entre vários exemplos: certas manifestações de pichação ou destruição de janelas de ônibus, monumentos, banheiros e telefones públicos, sinalização viária, lixeiras e pontos de ônibus.

A depredação do marcador de raios ultravioleta na praia de Copacabana, Rio de Janeiro, RJ; a quebra de lâmpadas de iluminação pública e furto de cabos de cobre em Campinas, SP; rabiscos no metrô em São Paulo, SP; a pichação em monumentos de Curitiba, PR; e a depredação de túmulos em cemitérios de Joinville, SC, são alguns dos atos nefastos que nos fazem indagar sobre o que leva alguém a praticá-los.

A pichação é uma tentativa de transmissão de mensagens privadas em lugares e objetos públicos. O ardor do impulso individual ofusca o interesse coletivo de compreender o significado e usufruir de um monumento, uma praça, ou outra obra e via públicas dentro da proposta de democratização de sua beleza. A pichação desautorizada, entre outros atos de vandalismo, é uma afronta à ordem e ao patrimônio coletivo.

Há um desnível educativo e de propósitos: uns comportam-se como se fossem cidadãos de país desenvolvido, enquanto outros sequer são capazes de jogar garrafinhas plásticas ou embalagens usadas no lixo. O primeiro grupo é capaz de guardá-las para a coleta seletiva, enquanto o segundo atira-las pela janela do ônibus. O vandalismo gera um mal-estar na população e difunde uma imagem denegrida da cidade e do país. Os problemas pessoais de um vândalo não deveriam interferir na relação de outrem com o espaço público.

Governos municipais têm feito campanhas contra o vandalismo. Entre outras medidas, dispuseram números telefônicos para denúncia e mensagens para desestimular as ações. O problema, no entanto, é o desnível de informação que há na população e a dificuldade de tratar cada caso individualmente. Não é só a carência de educação que causa o vandalismo, mas também problemas psicológicos e a afobação de manifestar-se diante da sociedade.

Tudo tem sua razão. O aluno tira nota ruim porque não se prepara para o exame, enquanto falta dinheiro para a educação pública no Brasil pela má alocação de recursos. E o vandalismo? Ainda não descobri sua razão. Se é que a tem.

Diretores da Câmara ( Pedro Cardoso da Costa )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Pedro Cardoso da Costa ( Bacharel em Direito ) :: 21/03/2009


Eis que o Senado se tornou o símbolo máximo atual de malfeitorias na Administração Pública brasileira. Nunca foi nem melhor nem pior do que muitos órgãos públicos. Seus escândalos repercutem mais por ter sempre passado a imagem de uma freira ilibada, quando se tratava de uma mulher mundana. Medidas de moralização só são tomadas, sempre bem aquém do necessário, após denúncias na imprensa. Como a Câmara tem um número muito maior de parlamentares, seria hora da mídia voltar sua fiscalização para aquela Casa. Depois estender às 27 assembléias legislativas e as mais de cinco mil câmaras municipais. O abuso tornou-se cultura nacional e precisa de combate permanente.

Não só as horas extras. Devem ser extintas muitas funções comissionadas, as famosas FCs, reduzir em milhões por cento a quantidade de cópias tiradas por quase a unanimidade dos servidores, abusando delas com seus trabalhos escolares; as compras desnecessárias e supérfluas, o gasto com a manutenção de aparelhos ligados, mesmo quando não são necessários; o consumo de combustível, principalmente nas câmaras municipais. As viagens, que tiveram como exemplo o voo da sogra do governador do Ceará. O utilização constante de aparelhos públicos em atividades particulares, mais comum na área da saúde. Tem mais e muito mais abusos a serem extintos.

E se deve criar um trabalho concomitante, de valor subjetivo. no sentido de elevar o espírito público para evitar que se ache normal usar a máquina pública para interesses particulares. Isso é uma utopia. É sempre a partir dela que as coisas impossíveis se tornam possíveis.

Elementar que o corte deve subir e acabar com as verbas abusivas de uniforme, de gabinete, uma desfaçatez para comerem dinheiro público. Com o caos social brasileiro, os parlamentares deste país são três vezes mais caros do que os franceses, algumas vezes mais do que os americanos e ingleses. Ou seja, se paga caro demais por algo um produto de péssima qualidade.

Embora flagrante o desvio de finalidade ou a malversação do dinheiro público, o Ministério Público Federal não tem sido atuante na fiscalização e no combate a muitos atos desastrados dos demais órgãos. É hora de agir com mais fervor para conter essa sangria deslavada com o dinheiro da viúva. Caberia aos organismos sociais tentar criar meios que permitam à sociedade acompanhar de perto a destinação do dinheiro, bem como a atuação dos seus administradores públicos para ajudar a controlar a sanha dessa gente sem pudor. É hora implementar um choque de gestão eficiente e um basta em tanta mordomia desnecessária em toda a Administração Pública brasileira.

A saúde e a imaginação ( Bruno Peron Loureiro )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 19/03/2009


O dilema da saúde no Brasil apresenta-se entre o Sistema Único de Saúde (SUS), que se deteriora pelo corte de gastos públicos e pressão de lobistas (grupos que influem os servidores públicos a favor de seus interesses), e o sistema privado que, entre outras demonstrações de que a saúde não é objeto de leis de mercado, aumenta o preço dos planos proporcionalmente à idade ou cancela a prestação de serviços para idosos. Esta balança pesa mais de um lado porque, quando o cliente mais precisa, o plano tira o corpo e sobra para o SUS fazer tratamento de doenças para as que aquele não oferece cobertura.

Tive duas motivações para escrever este texto: uma é a leitura de um foro de discussões sobre a saúde pública no Brasil e outra, de um artigo que recomendava aos detentores de planos de saúde usar artimanhas para agendar consultas mais rapidamente, uma vez que o agendamento pode levar meses quando se trata de convênio e ser no mesmo dia quando particular.

A saúde não deveria ser objeto de ganância, lucro e especulação financeira como se tratasse de qualquer produto no capitalismo. Tampouco acredito em concorrência entre empresas de plano de saúde como se participassem do mesmo campeonato que produtos banais de supermercado.

Uma coisa é falar de concorrência entre empresas que vendem medicamentos e equipamentos médicos, outra é inserir na mesma esfera de mercado a assistência à saúde e os direitos de acesso a ela.

O risco é o de que jovens saudáveis continuem pagando por planos de saúde quase sem usá-los, enquanto se nega este serviço a idosos que mais precisam dele.

Os discursos do “Programa Mais Saúde” da gestão atual de Lula, como os de equidade, integralidade e universalidade do acesso à saúde, ocultam os conflitos entre o interesse público e o dos planos privados, hospitais e médicos insatisfeitos com os salários. Estes discursos residem na terra da imaginação.

Não será um pequeno grupo de burocratas que controlará como deve ser a saúde no Brasil, pois concentraria as pressões de setores interessados em corrompê-lo e as decisões não partiriam de um diálogo democrático.

Proponho o fim gradual dos planos de saúde sem o qual dificilmente se juntarão forças para lutar por uma saúde pública eficiente e para todos. Os cidadãos que têm melhores condições de pressionar a favor da melhora do SUS hoje se iludem de resolver seus problemas por meio dos planos privados.

A idéia é a de atribuir legalidade somente a empresas públicas, e várias de modo que haja concorrência, atuando no setor de saúde e reguladas por agência estatal.

Desta maneira, os impostos poderão baixar e o Estado continuará oferecendo serviços de saúde, mas sem o objetivo do lucro voraz, e com a perspectiva de melhor qualidade e eficiência. Seria um equilíbrio entre burocratas e empresários da saúde, ao contrário de deixá-la somente nas mãos do Estado ou do mercado. Na terra da realidade.

Um antro! ( Pedro Cardoso da Costa )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Pedro Cardoso da Costa ( Bacharel em Direito ) :: 17/03/2009


“Cova funda e escura. Lugar de corrupção.” São definições do dicionário Aurélio, que define bem no que seria o Senado brasileiro hoje. A primeira seria a correta, a segunda, figurativa.

Há pouco tempo era seu presidente, Renan Calheiros, que não conseguia explicar o padrão de vida com o salario que recebia. Até que um gado de ouro deixou tudo às claras.

Em fevereiro, com um passado apenas de veterano na política, onde ocupou o cargo máximo por cinco anos e não resolveu problema nenhum, José Sarney foi eleito o mais novo-velho presidente da Casa.

Depois, foi a vez de Fernando Collor, de cujo passado nenhuma alma consegue esquecer, ser eleito presidente da Comissão de Infraestrutura para zelar pelo gasto de bilhões de reais. Muita gente teve pesadelo com a imagem daquele seu tesoureiro tão límpido quanto a água do rio Tietê em São Paulo. Não deu para esquecer nem da aquisição de umas calcinhas pela ex-primeira-dama. E a imprensa deveria ter rediscutido tudo que envolveu o ex-presidente da República, único legalmente expulso na história brasileira, e um dos poucos no mundo.

Ainda tiveram as denuncias do senador Jarbas Vasconcelos. E o coroamente veio com o pagamento de mais de 6 milhões em horas extras para servidores no período de férias. Essa medida que corroborou com uma posição de Diogo Mainardi que dizia do prejuízo que traz ao Brasil quando os congressistas trabalham.

Como sempre nessas ocasioes, logo o responsável direto explicou que fora tudo pago na mais ampla legalidade. Sempre é assim. Ao Exceleentíssimo devem ser lembrados os Princípios Constitucionais básicos que norteiam a Administração Pública, principalmente o da moralidade. Outro café requentado nos meus comentários é que nenhum ato adminitrativo pode ser legal se for imoral. E estas horas extras são flagrantemente imorais. Isso tudo ocorre devido ao comodismo da nação, e por que já se aceita tudo como natural na política, devido à nação está vencida pelo cansao e pela repetição de atos abomináveis como estes. Ninguém usa o telefone geral do Senado, 3303-4141, nem os email dos senadores, nem o sitio www.senado.gov.br. Muito menos aparece um protesto por uma organização sindical, conivente, em função do favorecimento aos servdores. Também nenhum renomado se manifesta. Ninguém ouve a mais nova versão de Deus em carne e osso, Pelé; nem Zico, Mãe Dinah, Xuxa, um bispo, um guru, ou seja lá quem for. Nenhum senador se manifestou contra. Nem Suplicy! A bandalheira foi geral. E a imprensa nem sequer fez mais aquela comparação de quantos carros populares seriam comprados, quantas casas próprias seriam construídas com essa montanha de dinheiro, ou, em notas de cem reais, quantas voltas daria ao mundo.

O Ministério Público federal tem o dever de mover ação, ao menos, para apurar improbidade administrativa, senão possíveis crimes.

A nação brasileira tem que exigir a devolução desse dinheiro e a extinção definitiva das práticas dissimuladas para comer dinheiro público. Nada explica o pagamento de tanta hora extra. Que se adeque o serviço ou se contrate servidores. Essa mamata, e outras dessa natureza, tem que acabar.

Plagiando Janio de Freitas, a fossa não para de transbordar, mas a limpeza nunca vem; ao contrário do que afirmou o fantástico colunista. E que lembrança involuntaria daquele senhorzinho que sujou sua bengala em Zé Dirceu! Com ações como esta, a definição de lugar de corrupção torna-se inerente. Mas, no caso do Senado, tem o sentido que as pessoas comuns dão a lugar onde, além de corrupção, inspira desrespeito, vileza, prostituição, baixeza. É isto. O Senado está prostituto. Tornou-se um antro.

Minha querida maezinha! ( Mauricio Martins )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Mauricio Martins ( jmauric@click21.com.br ) :: :: 15/03/2009


Sou daqueles que detesta a hipocrisia, prefiro ser autentico, mesmo que certas pessoas não aceitem minhas “verdades”, por isso, ao invés de falar da vida dos outros, prefiro falar da minha.

Lendo o livro de Augusto Cury, “ Maria, a maior educadora da História”, uma imensa saudade abrasou meu coração. E veio à minha memória, a figura de minha querida mãezinha, Rita Martins da Silva, (que neste domingo, 15 de março completa 75 anos).

No livro o autor nos revela a grande coragem de Maria, que aceitou participar do sonho de Deus, o qual se tornou seu próprio sonho, pois, antes de casar com seu esposo José, ao receber a visita do anjo Gabriel e aceitar a proposta de Deus, de conceber do Espírito Santo o seu filho, que vinha para libertar seu povo e por extensão toda a humanidade. Ela não hesitou do convite, mas, Maria teve medo de ser apedrejada (era costume da época), afinal, quem naquela aldeia entenderia a sua gravidez? Como explicar o inexplicável? Que parente a acolheria? Que amiga lhe daria ouvidos?

Qual religioso a entenderia? Maria, não era filha de sacerdote, mas sua relação com Deus era estreita, íntima, ultrapassando o limite da religiosidade. Maria cresceu numa nação em conflito, onde a miséria fazia parte do traçado existencial das pessoas. Roma dominava os povos com tributos pesados, onde o povo trabalhava mais e mais para saciar o luxo do Império e a vaidade do César.

Portanto, Jesus, nasceu neste mundo de miseráveis, excluídos da sociedade e da sua fé, abandonados a própria sorte, mas sem perder a esperança na vinda do Salvador. Com certeza não foi nada fácil Maria educar seu filho Jesus, para ser autor da sua própria história. Maria como toda a mãe curtia seu filho a cada momento, Ela ensinava e aprendia muito, onde a mãe descobria o filho como Ele era, e o filho descobria a sua mãe carinhosa, protetora e bondosa, a casa de Maria era uma escola viva, onde as emoções borbulhavam, a cada nova descoberta de experiências excitantes e assim formou o homem Jesus.

Há 52 anos atraz, também não foi diferente pra uma jovem de 22 anos no interior do Pará, mas precisamente na cidade de Bragança, a chamada mãe solteira, dar à luz ao seu filho, educá-lo com todas as dificuldades de sua época, para este menino, um dia ser um homem de caráter, cumpridor de seus deveres e obrigações.

Quantas vezes, quando ela reclamava de uma pequena dor de cabeça, Eu, criança pedia ao papai do céu pela sua saúde (e ainda faço até hoje), pois tinha medo de perdê-la, imaginava o que seria de mim sem o seu carinho, o seu amor. Minha mãe foi tudo pra mim, às vezes pai, irmã e irmão, meu porto seguro, minha verdadeira inspiração para lutar pelos meus sonhos e objetivos de um dia constituir minha própria família.

Com certeza, foram dias difíceis e horas árduas de trabalho e incertezas sobre meu futuro neste mundo cão, mas graças a Deus e a ti mãe, consegui superar a tudo com muita fé, dedicação e amor.

Mãe, me embala no teu colo, me faz dormir!
Pois dos teus braços fortes, eu nunca esqueci!
Quero voltar a ser criança, teu lindo bebê!
Obrigado meu amor e perdão, se te fiz sofrer!

Ps: - Esta crônica dedico a você mamãe, mulher de fibra e muita coragem. Feliz Aniversário.

Dia do olho roxo ( Pedro Cardoso da Costa )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Pedro Costa Cardoso ( Bacharel em Direito ) :: 09/03/2009


Parece daquelas brincadeiras de mau gosto, mas não é. Trata-se de definição de uma delegacia da mulher fazendo referência à segunda-feira, dia de maior incidencia de espancamento pelos companheiros, maridos, amantes e namorados. Parece uma brincadeira, pois é colocada como se fosse uma coisa normal do cotidiano. Não é. Quem espanca qualquer pessoa comete crime, e quem comete crime é criminoso. Toda discussão correta tem que começar deste ponto. De outra forma é distorção.

Quando a decantada lei Maria da Penha foi aprovada como solução da violência contra mulheres, discordei e mencionei em artigo a ressalva de que se tratava de lei mais benéfica do que o Código Penal. E lei penal mais benéfica é obrigatória a sua aplicação. A lei especifica a pena mínima de três meses. O Código Penal prevê dois anos, quando a agressão causa deformidade permanente (art. 129, § 2º, IV). Mulheres com partes queimadas dos corpos, com pedaços arrancados ou com imensas cicatrizes são o que se vê todo dia na televisão e nas delegacias. Alguém precisa explicar a diferença da deformidade da mulher espancada pelos companheiros de outra causada por um estranho.

Além disso, vários outros artigos podem ser aplicados, No meio de tanta violencia há tipicidade de crimes como cárcere privado, extorsão de bens, abortos provocados em decorrencia das agressões, abuso do pátrio poder e a maioria poderia ser tipificada como tentativa de homicídio, já que muitas mortes não se concretizam por interferência de terceiros. Essas agressões vem para fazer as mulheres calares sobre condutas reprováveis como traição, namoro, bebedeiras, jogos e outras incompatíveis com a vida conjugal. Também se deve ressaltar que os agressores se aproveitam de suas condições de brucutus contra frágeis mulheres. Em grande parte são covardes incapazes de levantar a voz contra outros de seu porte e descarregam suas frustrações sobre aquelas a quem deveriam protegê-las.

Não podem ser amenizados pela relação de parentesco. Caso arrancassem pedaço de um vizinho seria crime. Aceitar que pode tirar pedaços da esposa, da companheira é dá um atestado de impunidade sobre um crime covarde e hediondo. E de ação pública, o que não permitiria direito de perdão pela vítima.

Deixar a defesa por conta das próprias vítimas é não querer enfrentar o problema como se deve. É simplificar demais. É facilitar a ação desses brucutus, toscos e torpes. As mulheres sofrem primeiro o domínio psíquico. Não tem forças para se defender sozinhas.

Há algum tempo o ator Kadu Moliterno agrediu a esposa. A rede Globo, ao menos, poderia ter expedido um manifesto de repúdio e não permitir trabalhar como ator. Essa permissão ajuda a passar a ideia de que alguns podem agredir sem punição. E não vale a máxima de que o pessoal é separado do profissional. Não é e não deve ser. Pois o comedimento vem em função de possíveis punições.

Todo os órgãos públicos, o Ministério Público, a sociedade em geral, as instituições de voluntários precisam se unir para criar mecanismos efetivos de defesa às vítimas.

Já as mulheres precisam tomar a iniciativa de sua própria defesa, já que são elas que sofrem as torturas. Generalizar o conceito de que agressão física jamais será aceita. Só colocar letras em papel, chame-se isso de lei, nada resolve, conforme comprovado pelo aumento de assassinatos de mulheres pelos companheiros. Quem causa lesão corporal ou agride é bandido e como tal deve ser severamente punido.

Parabéns a todas as mulheres bragantinas neste dia da Mulher


Crônicas & Opiniões | Fonte: Madson Oliveira ( Editor do Correio ) :: 08/03/2009


HOMENAGEM DO JORNAL ON LINE CORREIO BRAGANTINO AS MULHERES BRAGANTINAS.

Hoje, não quero ser a mulher forte, com atitude de leoa, sedutora, aquela que luta, defende, conquista, consola, abriga...

Hoje, eu quero deixar que a mulher sensível, delicada, romântica, frágil... seja vista e sentida!

Quero um carinho, um abraço, um colo... Quero braços que me envolvam protejam, abriguem. Quero um corpo onde possa me aconchegar; um ombro para poder chorar, uma mão que acaricie meus cabelos, olhos que vejam as lágrimas cairem no meu rosto quando falo dos meus medos ...

uma boca que me diga palavras de ânimo e esperança e que me beijem com amor e carinho! Quero olhos que vejam minha fragilidade, que me admirem por ser delicada e que não desejem que eu tenha que ser sempre forte! Quero ser admirada, notada, e quero que me queiram por também ter um lado frágil.

Quero que me admirem por ser mulher na sua essência, não só o lado leoa, mas o lado beija-flor e também flor! O lado que necessita do outro que também precisa receber! Quero hoje... a fragilidade de ser MULHER!!!.

Crise da criatividade ( Bruno Peron Loureiro )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro (analista relações internacionais) :: 03/03/2009


Chegamos a um momento de crise da criatividade, que se deu após a turbulência de idéias dos séculos anteriores, em especial, das últimas décadas. O que não quer dizer, porém, que é o fim do ser criativo ou que já não é possível mais criar, uma vez que o processo continua ainda que paulatina e surpreendentemente. Parto da premissa de que a criatividade não é a mesma coisa que acúmulo de conhecimentos: aquela tem a ver com a fluidez da imaginação e o uso da inteligência, enquanto este se refere simplesmente ao depósito de informação.

Vamos para os argumentos. As eleições passadas formaram coleções de discursos políticos clichês ou que repetem como papagaio os de décadas ou até séculos atrás se levarmos em consideração os sistemas políticos de vários países. O mais grave é que as propostas, quando existem, quase sempre se amparam em princípios implantados em outro contexto e importados por nosso país sem que se considere necessariamente a realidade em que vivemos. A menos, é claro, que se proponha construir uma ponte ou uma creche em tal bairro, e aqui alguns supõem que haja criatividade.

É cada vez mais profusa a cópia de trabalhos intelectuais ou obras artísticas por preguiça de um suposto criador. Os filmes que passam nos cinemas exigem um cuidado especial para que não se confunda ficção com realidade, embora o mesmo autor esteja em vários deles ou pressuponhamos que se trate de criação. Os de terror dificilmente saem dessa de casa amaldiçoada ou de mitificação do desconhecido; os de aventura trazem atos heróicos, quando não sensacionalistas, de final feliz; e o de histórias de amor às vezes recheiam com algum problema atual para parecerem criativos.

Comentei de idéias que se oferecem como propostas para a regulação da nossa situação política e social, de um gênero de indústria cultural que são os filmes, e acrescento que na televisão ocorre um processo semelhante de crise da criatividade, mas que se faz passar por novidade. Um programa tende a imitar o outro em função da audiência. Desde as pegadinhas até os “reality shows”, que passaram por Europa e Estados Unidos e logo apareceram em “Casa dos artistas” e “Big Brother Brasil”, com todas as suas edições anuais. O mesmo com o “American Idol” estadunidense, que inspirou o “Ídolos” brasileiro. E faz sucesso.

Ao “Se vira nos trinta” do Domingão do Faustão, contudo, dou-lhe crédito como incentivador das manifestações populares de criatividade. Até mais do que atribuo às novidades da Polishop e de outras empresas, que de tão estapafúrdias acabam sendo opções criativas para os consumidores que querem produtos de limpeza mais eficientes, televisores que cabem na palma da mão ou acessórios de ginástica e fortalecimento muscular que fazem todo o trabalho enquanto o usuário está relaxado, entre os portáteis e que ocupam menos espaço. Poderíamos achar que a criatividade não está tanto em crise porque nos tornamos mais exigentes. Queremos o mesmo, mas em nova roupagem.

O brasileiro é muito criativo, diverso e inteligente, porém aguarda passivamente que alguma instituição o promova sob risco de que sua criatividade fique mal representada. E é o que acontece na maioria dos casos. A crise a que mais me refiro é a de domínio oligopólico das indústrias culturais e comunicacionais, que, em função do lucro e da ganância, acabam limitando a criatividade do ser humano. Logo, se não está na tevê, ninguém vê, ninguém escuta, ninguém sabe. Assim se alimenta o estancamento da criatividade e difundem-se impressões e registros de um mundo ditado por poucos.

Um olhar atento ao que o mundo já criou sugere, no entanto, que estamos num momento de crise da criatividade. Por mais que cada ser humano seja único e original (que gêmeos são completamente iguais?), o que parece faltar é a mobilização dos elementos que fazem da nossa realidade distinta e, portanto, autêntica. Deve haver algum jeito de continuar criando, ainda que não seja artista ou cientista. Nem todo criador o é dentro de uma profissão. O lado direito do cérebro é associado à criatividade. Quem sabe uma massagem neste hemisfério o reacenda.

Garçom ( Ronaldo Duran )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 26/02/2009


Peguei carona. Desço, atravesso a Avenida das Nações Unidas. À entrada do restaurante, as mãos ocupadas com os livros, me esforço para cumprimentar o pessoal. Corro para o quartinho. Sim, tô atrasado. A aula de anatomia me pegou. E nem dava para sair mais cedo: eu estou meio enroscado. Preciso melhorar as notas. Estou me aplicando o máximo. Primeiro, para o conhecimento entrar na caixola; segundo, para exibir uma pose de comprometido com a aula, isto conta ponto com a mestra. Nem pense me deixar mais numa dep, professora. Eu preciso fechar este semestre melhorzinho, se não corro o risco de não concluir o curso de Fisioterapia em quatro anos.

Nem gasto muito tempo na troca de roupa. Quando a disciplina é mais laboratório ou em sala de aula, vou vestido de calça, sapatos, meia pretas. Aqui, apenas troco a camiseta pela camisa branca e a gravata.

“Ei, boa vida”, disse o maître rindo assim que me aproximo do caixa, “leva o prato da mesa 28”. E lá fui eu. A fome me roendo o estômago. Complicado, antes de começar a trabalhar eu sempre janto. O dia que chego mais tarde, contudo, o horário de janta coletiva já se encerrou e a turma está no maior alvoroço. Claro que eu como depois. Basta escapulir para o interior da cozinha, e com cara de pidão, conseguir meu prato com o cozinheiro zombador.

Que absurdo! Na hora que fui cortar o bife a cavalo da mesa 28, o treco escapou e foi parar no chão. O maître corre. Pede desculpa. E providencia outro prato na cozinha. “Que mancada!”, me adverte. “Talvez por que não jantei”, respondo. “Tá, então vá jantar”. E sigo para cozinha. Sei que este episódio consumirá a semana toda como lenha para zoarem comigo.

Ela chega, e com ela desperta minha paixão adormecida. A gerente. Sim, parece romance. Eu daria tudo para depositar um beijo em seu rosto. Não faço às vezes de patinho feio. Sou despojado. Até trocamos idéias legais. Sinto, porém, que ela me trata como um subalterno, que minha paixão é unilateral.

Sou grato por ela existir, e estar aqui perto de mim. Por causa dela eu experimento essa sensação gostosa. À noite, na minha república solitária de fim de semana, quando estou estudando, penso nela, em seu rosto, no seu modo de desfilar quando anda, no jeitinho de falar. Faz-me companhia sua imagem bailando em minha mente.

Vamos torcer que a caixinha hoje seja mais gorda. Preciso pagar a apostinha de Fisiologia III, além de comprar um tênis decente para as aulas de educação física da quinta-feira de manhã. Eu vou trampar com vontade, e espero que os clientes e suas gorjetas me sorriam.

Seja diferente! Mas seja você mesmo! ( Mauricio Martins )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Mauricio Martins ( jmauric@click21.com.br ) :: :: 22/02/2009


Não! Não sou psicólogo, mas apenas alguém que já foi jovem e hoje é pai de quatro adolescentes, só quero entender um pouco a geração atual, uma juventude que busca nas atitudes e aparências ser diferente (está na moda) para agradar sua galera, mas como ser diferente sem agredir os conceitos da moral e dos bons costumes.Vivemos no Brasil, um país diferente, um lugar, que tem negros, brancos, amarelos, enfim, numa sociedade que impõe valores baseados no ter e no poder, rotulando a tudo e a todos de maneira preconceituosa.

A globalização via Internet, permite um contato rápido com o mundo, onde o modismo imposto pelo consumismo cria conceitos duvidosos, que discrimina os que por algum motivo atendem um perfil correto no modo de vestir, de falar, de se comportar, desprezando os sentimentos, a cultura, os pontos de vista religiosos do individuo. Como também, não aceitam que outros experimentem a diferença, isto implica dizer que, usar tatuagem, piercing, cabelo colorido, falar em código deixa o individuo “esquisito”, um louco, um exagerado, um inconseqüente, portanto, é preciso respeitar as diferenças, olhar o próximo com olhos do coração (ver diferente), pois na verdade, a diferença encontra-se no Eu de cada individuo, na formação moral, no fortalecimento espiritual, na facilidade de amar o seu “irmão”, de ser fraterno e solidário.

Na minha época de garoto, vivenciamos os movimentos “Hippie”e “Brack-power” que pregavam o amor livre, onde o lema era: É proibido proibir. Pregava-se a convivência em comunidades sem noção da barreira entre tempo e espaço, uma juventude sem compromisso, sem obrigação ou deveres, tudo isso aliada à necessidade de paz e liberdade, uma forma de luta contra o preconceito racial na América, a guerra do Vietnam e a ditadura militar no Brasil.Em busca desta liberdade, muitos jovens ficaram cegos e não perceberam que estavam sendo usados, e cada vez mais presos a conceitos errôneos, buscando o prazer pelo prazer, sem descobrirem a verdadeira essência do prazer “a vida”.

O que aconteceu com estes jovens? Boa pergunta meu caro leitor, mas não tenho a resposta, sei apenas que Eu nasci em Bragança no Pará, e, como dizem por lá, “sou um papa-açaí” e sou feliz por ter nascido ali, junto ao rio Caeté, amei os Beatles e curti os Roling Stones, sobrevivi, (embora desde meus dezeseis anos tenha enfrentado uma barra), morando sozinho, estudando para ser alguém (que pudesse um dia construir sua família), sem me prostituir, sem me drogar, sem me corromper, na certeza de que vale apena cultivar os princípios divinos, ser honesto, ter responsabilidades, enfim, ser um “homem”de verdade.

O que devemos passar aos nossos jovens?. Qual herança que eles devem herdar?.São perguntas difíceis de responder, pois, diante de tantas diferenças, não podemos julgar alguém, sem antes conhecê-lo direito. Se faz necessário repensar alguns conceitos, fortalecer certos valores, mas principalmente amá-los como eles são.

Afinal, o Jovem de Nazaré, filho de Deus, que veio ao mundo para anunciar uma nova civilização, viveu de forma simples, contou histórias de lições lindas, realizou belos milagres, ensinou o amor, viveu o amor, é AMOR.

Nota: Esta crônica dedico aos meus inesquecíveis amigos Paulo Vitor Monteiro, Roberto Monteiro, Sanjean Jacó, Juarez, Maria Lair, Regina Célia da escola Professor Paixão, no ano de 1974.

C’est Jolie, La Sociologue ( Ronaldo Duran )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 19/02/2009


Se bocejo é culpa do calor. Pode parecer implicância de europeu, mas não é. A frase o calor está castigando escutei várias vezes nestes três dias em São Paulo. A I Jornada Paulista Sobre Crianças Abandonadas fornece um panorama da realidade brasileira.

Recebi o convite de um de meus ex-orientandos e quis retribuir a gentileza de ter tido vários alunos brasileiros nos meus mais de dez anos de livre docente na Sorbonne. Pesou também a emoção que é visitar a terra dos mitos Florestan Fernandes e Milton Santos.

Definitivamente, o calor me amolece.

De repente, ela se levanta. Caminha para frente da platéia. Sua vez de expor. Ela me toma a atenção de uma forma pouco comum. Não sou assexuado, mas raramente noto o corpo de uma expositora. Levo muito a sério meu trabalho, e que me lembro, jamais faltei com respeito para com minhas colegas de profissão. Mas ela me abraçou a alma. Talvez a pele morena? Ou o gingado do corpo? Quem sabe a sensualidade despretensiosa em sua fala?

Vai ver é culpa de Jorge Amado. Há uns seis meses, adentrei na leitura do genial baiano, caprichoso porta-voz da cultura brasileira, a qual é mistura ímpar entre negro, índio, branco e asiático. Seria a personificação de Gabriela Cravo e Canela a moça que vejo? Esquivo-me do meu tradicional mau-humor foucaultiano, dando um tempo até para o gramscinismo que domina meu pensamento nos dias normais. A blusa vermelha combinado com os delicados sapatos, o penteado simples, a calça que parece cair como luvas em suas belas curvas. Diante dela eu prefiro ser positivista do que negativista.

O Brasil me encanta. Nunca o encarei como turismo sexual. Longe disso. Gosto de sua gente. Simpática, acolhedora.

Estou me sentido mal. Ela se esforçando para apresentar o trabalho científico, que deve ter tomado noites inteiras e, com o incentivo pouco dado no Brasil, dá-se para imaginar como sofrera para formar-se. E eu aqui olhando suas curvas. Sinto-me desonesto. Tento desviar o olhar. Centrar-me nas tabelas estatísticas, na explanação acurada. Que nada. Minha visão é arrastada para ela. A situação é incomoda.

Ela é a Iracema tão bem cantada por José de Alencar. C’est jolie, la sociologue. Obrigado Brasil por brindar a humanidade: a beleza de mãos dadas com a aridez sociológica. La jeune femme, c’est une lune éclatante. Je m’écorche mon coeur. A apresentação terminou. Não ousei olhar para suas nádegas. Quero, sim, guardar a imagem vivaz de sua exposição, sentada ou em pé, esbravejando sobre a injustiça social, sem sufocar seu ser feminino.

Mortalidade Infantil ( Bruno Peron Loureiro )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 17/02/2009


Há certos destinos, como a morte de algumas crianças até um ano. Refiro-me a um número baixo, uma porcentagem, segundo ocorre nos países mais prevenidos. A fatalidade pode seguir uma ordem que está além de qualquer esforço humano. No entanto, é inaceitável que crianças em idade tão precoce deixem a vida por falta de instrução familiar, condições precárias de saúde, carência de educação e meios para a sobrevivência, entre outras causas que se podem evitar num país mais preparado e justo. A taxa de mortalidade infantil no Brasil, em relação à América do Sul, só não é pior que as de Bolívia e Paraguai.

Estou tratando de um dos indicadores de desenvolvimento humano de um país, entre outros como expectativa de vida, educação e renda. O Ministério da Saúde e o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) definem taxa de mortalidade infantil como o número de mortes de menores de um ano de idade a cada mil nascidos vivos num espaço geográfico e ano considerado. Estas instituições associam a taxa principalmente às condições de saúde e desenvolvimento econômico. No indicador de mortalidade infantil, países como Cuba, Argentina, Chile, Costa Rica e México estão em melhor situação que o Brasil.

Soa promissor o discurso oficial de que nosso país alcançará a meta global de reducação da taxa de mortalidade infantil até 2011, portanto antes do prazo estipulado pela Organização das Nações Unidas (ONU). Esta propôs os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio, que, entre outros tópicos como a erradicação da fome e da pobreza extrema, a garantia do ensino básico universal e da sustentabilidade ambiental, sugeriu a redução em dois terços da mortalidade de crianças menores de cinco anos entre 1990 e 2015. Atualmente a média brasileira é de 23 óbitos por mil, o que é preocupante para um país deste porte.

O que mais agita os neurônios dos responsáveis pelas políticas públicas neste setor é que alguns estados já alcançaram a meta, enquanto outros estão longe dela e vislumbram-na num horizonte mais longínquo. Há desigualdades exacerbadas entre as taxas das regiões Sul e Sudeste, que são as menores, e as do Norte e Nordeste, que continuam altas apesar dos esforços para reduzi-las e dos avanços. O Rio Grande do Sul tem a menor taxa de mortalidade infantil; Alagoas, a maior. É necessário calibrar a estratégia no setor e concentrar as políticas nos estados onde ela é mais alta.

É idílico o anúncio de que o Brasil passou a fazer parte do grupo dos países de “alto desenvolvimento humano” segundo o Índice de Desenvolvimento Humano (IDH) da ONU porque logo se dá conta de que o alarde não implicou melhor inserção do país no mundo nem a extinção de problemas tão rudimentares quanto a fome e a miséria. Ao contrário, o Brasil retrocedeu na classificação de desenvolvimento do qual participam 177 países. O indicador de mortalidade infantil nos exige o questionamento do que fazer para equiparar índices de desenvolvimento de estados que já entraram no século atual e de outros que arrastam vestígios do anterior.

Pensemos num país menos desigual e, antes de que as crianças tenham direito e acesso a boa educação conforme se tem discutido tanto, que elas possam ao menos sobreviver.

O giz do sacrifício ( Sanronald )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Sanronald ( san.ronald@hotmail.com ) :: 13/02/2009

Um jovem destemido e bem resolvido decidiu para o desespero de seu clã que seria professor. Sua mãe num retumbante ah! ah ! ah! disparou: “_Alegria de professor somente durante a cerimônia de formatura. O que virá depois será pura ilusão”. O jovem parou por um instante e pensou: “Minha mãe em parte tem razão, mais nem só de anel de grau se enfeita o dedo de um bom professor, mas de muitos calos e pó de giz, adquirido na árdua missão de ensinar e aprender”.

Seu pai foi além: “_Não queira se aventurar, não existe luz no fim do túnel. Lembre-se de Colombo que quando saiu da Espanha não sabia aonde chegaria e quando chegou à América não sabia onde estava. Morreu pobre e, esquecido acreditando piamente ter encontrado o caminho para as Índias”. O jovem parou por um instante e pensou: “Meu pai em parte tem razão, Colombo em seu tempo não teve os flashes dados às ‘bundas televisivas’ que abundam em nosso meio, mas graças à sua ousadia de viajar por mares obscuros desvendou a outros o caminho para o novo mundo”.

Seus amigos de escola o imaginaram em uma promissora carreira médica, além do que seria chamado de “Doutor” O jovem de fato não escondia sua admiração por essa profissão, mas lembrou dos muitos médicos de sua cidade que consultam seus pacientes em hospitais públicos e encaminham-nos a tratarem de suas doenças crônicas em suas clínicas particulares. Houve também quem o visse desenvolvendo atividade forense alinhado em um elegante terno, tendo nas mãos uma linda pasta de couro.

O jovem suou efusivamente e pensou nos muitos advogados do diabo que magistralmente se propõem a defender as possíveis causas dos fraudadores de recursos da educação que movidos por uma atitude nada pedagógica, se apropriam de verbas destinadas à merenda, ao transporte e ao livro didático escolar tão imprescindíveis aos estudantes de seu país. Diante da iminente perda do sentido moral e ideológico de tais profissões o jovem ardeu-se profundamente.

Não convencido, seu clã resolveu submetê-lo ao oráculo de Delfos, para fazê-lo ouvir o presságio da sacerdotisa Pítia que profetizou: “_Meu caro! Estás destinado a passar parte de sua história protestando e reivindicando a reposição do salário justo que nunca terás. Ouvirás os deuses de seu país dizerem: ‘_Reposição salarial só para os nobres do poderes executivo, legislativo e judiciário e a quem mais interessar para o bem do clientelismo público’”.

Apesar dos contras, o jovem continuou firme no seu propósito de ser professor e vislumbrou em sua mente outras cenas da vida real. Lá estavam o cacique Chicão, Chico Mendes, Zumbi dos Palmares, Irmã Dulce da Bahia e Paulo Freire.

E agora o professor decidiu colocar luz no quadro escuro e usar seu próprio giz para educar seu povo.

sábado, 21 de fevereiro de 2009

Nunca desista dos seus sonhos ( Mauricio Martins )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Mauricio Martins ( jmauric@click21.com.br ) :: :: 26/01/2009

Lembro como se fosse hoje, o ano era 1972, nós morávamos em Bragança, minha terra natal, Eu tinha então 16 anos, quando minha querida mãe me deu a notícia, era preciso mudar de cidade, meu padrasto recebera uma proposta irrecusável para gerenciar uma transportadora em Belém, ela iria embora junto com meu irmão dois anos mais novo, mas eu precisava ficar, depois dos estudos eu seguiria para a capital Paraense.

A princípio mesmo com uma forte dor no peito de imensa saudade, concordei com ela, eu estava no colegial, não podia deixar meus estudos pela metade e assim aconteceu, durante dois anos morei junto com minha prima recém casada com um americano Michael O´grady, foram dias difíceis, porém de grande aprendizado para minha formação moral, pois todas as coisas ocorridas na minha vida de adolescente fortaleceram meu caráter e assim construí minha personalidade, e foi assim que nasceu dentro de mim um sonho, prometi a mim mesmo que um dia me formaria e constituiria minha família, uma esposa, filhos, uma família unida, onde não haveria separação entre pai e filhos, onde compartilharíamos sempre juntas nossas alegrias e tristezas.

Enfim, no ano de 1974 cheguei à Belém, onde graças a Deus voltava para os braços carinhosos de mamãe, e no mesmo ano fui admitido na Escola Técnica Federal do Pará no curso de Telecomunicações, e logo consegui um emprego para manter meus estudos, fui trabalhar com o Dr.Félix Emanuel Teixeira de Oliveira, um bom homem, grande amigo, o responsável pela mudança de um garoto interiorano com muita vontade de vencer, no homem determinado em ser um cidadão consciente de seus deveres e obrigações para o fortalecimento de uma sociedade justa e fraterna.

Numa manhã de 24 de junho de 1979 cheguei à Imperatriz, após quatro maravilhosos anos em Belém, estudando na Escola Técnica Federal do Pará o curso de Telecomunicações me formei e conseguira ser aprovado em concurso na EMBRATEL, ao consultar minha família e amigos, optei em morar nesta cidade, como precisava fornecer um endereço no meu novo emprego, por indicação de um vizinho conheci a família de uma senhora guerreira e desbravadora em Imperatriz, DOLORES BORGES MACEDO, onde fui muito bem recebido e durante aproximadamente dois meses tive o prazer de morar com esta família, de onde nasceu uma bela e forte amizade até os dias de hoje.

Logo em seguida mudei para a “republica” da Embratel, localizada na Rua Bahia, de novo o desafio de morar sozinho, longe da minha Mãe e Irmão, mas agora por pouco tempo, era chegada à hora de completar meu sonho, construir minha própria família, logo encontrei uma linda jovem e me apaixonei, seu nome INALDA LIMA CORRÊA logo casamos e tivemos nossa primeira filha, Talita Lima Martins, uma linda menina, achei que não precisava de mais nada, era um homem feliz tinha duas belas mulheres, pensava em apenas curtir a vida, mas numa tarde de fevereiro, o inesperado aconteceu, uma tragédia se abateu sobre nós, nossa menina nos deixou, no seu lugar nada mais havia, restava apenas guardar mentalmente seu perfume, foram dias de profunda tristeza e dor, apesar de tudo nunca perdemos nossa fé e esperança, o sonho tinha que continuar e Deus, sempre e somente Ele teve piedade de nós, e nos presenteou com mais quatro filhos, duas meninas Thayná e Bruna e dois garotos gêmeos Pedro Henrique e João Luciano, agora sim minha felicidade estava completa, afinal esta é a minha família “Lima Martins”.

Passados vinte e cinco anos do nosso casamento, tenho orgulho em afirmar isto: Casei para nunca descasar,e embora toda aquela dor de uma intensa saudade volte a machucar meu coração, com a partida das minhas meninas, Thayná e Bruna, ambas em busca dos seus sonhos, Thayná Lima Martins que passou em medicina na UEPA quer se formar em pediatria, cuidar da saúde das criancinhas e um dia ter sua própria família, Bruna Maria Lima Martins cursando Engenharia Ambiental na UEPA e Oceonagrafia na UFPA, quer cuidar do Planeta, melhorar a qualidade de vida da Mãe Terra, lutar para que todos tenham direitos a viver num mundo melhor. Meu filho João Luciano Lima Martins recém aprovado na UEMA em História, busca criar sua própria,quer conhecer outros Países. Vão com Deus filhos e que nossa Nossa Senhora de Nazaré, proteja todos vocês, quando a saudade bater, lembrem-se, estamos aqui, sempre juntos e torcendo muito por vocês, afinal não falei, quando Deus me deu vocês, ELE estava namorando, um belo e feliz destino para todos nós.

“Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor toda a terra, Anunciai entre as nações a sua glória e entre os povos as suas maravilhas.” Salmo 96.

Obs.: Esta crônica é dedicada a minha querida esposa Inalda Lima Martins, sem ela Eu seria um João ninguém, com ela Eu sou ...

A Lanchonete ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 11/00/2009

Incomoda-me a sensação de conflito quando estou a passeio em algum lugar, distraído da rotina ou fazendo o possível para desfrutar dos minutos de ociosidade. Tento esquecer que as dificuldades e as mazelas existem, ou colocá-las um pouco de lado, mas não dá. Coça a orelha.

Quando falo de conflito, refiro-me ao que tantas vezes fechamos os olhos ou fingimos não ver para não sentir a dor que não merecemos, como a dura vida de mendigos, pedintes, viciados e outros gêneros de excluídos e sofredores.

Ao fim, acabo tendo que aceitar os conflitos quando menos espero e faço, em seguida, algumas reflexões sobre a situação antes que eu perca a oportunidade de entravar uma nova discussão construtiva. E parece que, nestes momentos, nosso pensamento atinge maior fluidez.

Uma dessas ocorreu enquanto eu pagava a conta de uma refeição rápida numa lanchonete e notei que vários funcionários que estavam de frente na cozinha me olhavam como que tentando expressar algo. O recinto era aberto para satisfação dos clientes desconfiados. Virou moda esse acesso facilitado às cozinhas nos estabelecimentos que trabalham com refeição. De duas, uma: ou é para provar que o lugar tem higiene ou para desafiar a coragem do cliente.

Pensei que estivesse ficando louco. Será que lhes incomodava o fato de eu estar passeando, alimentando-me e de certa forma divertindo-me com os amigos no fim de semana enquanto eles tinham que suportar o calor que se levantava da chapa e um turno extenuante de serviço? A imaginação aflora.

Melhor se fosse por outra razão. Mas, espera! Não tinha um abacaxi na cabeça, nem a beleza de um galã de cinema, nem fiz nada que merecesse olhares tão perscrutadores vindos de um mesmo grupo de trabalhadores.

Quer saber? Tempos depois, nessa incerteza de crise econômica mundial em que não tem um santo que se salva nem vela que suporte ficar muito tempo acesa, concluí que eu é que deveria ter-lhes olhado daquela maneira e pensado que, com o aumento crescente do desemprego no mundo, eu os invejava porque eles tinham motivos para comemorar de estar aí.

E os números têm comprovado esta atitude porque o desemprego é um tema que se revigorou no mundo, voltou para inquietar os analistas e os tomadores de decisão como um problema mal resolvido.

No fim de janeiro, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que é uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU), anunciou que este ano de 2009 poderá representar a perda de até 51 milhões de empregos devido à crise econômica mundial. Este número indica a previsão mais nefasta.

Conflitos que aparecem em hora errada têm serventia porque mostram que o prazer se confunde com a dor, a diversão com a infelicidade, e a incerteza com a dúvida.

Valorizo a informação que se lê na expressão facial antes mesmo de os lábios vibrarem, ainda que tenha continuado sem saber qual foi a mensagem intencional na lanchonete. De qualquer maneira, agora comunico sobre a do desemprego, que, esta sim, vai perseguir muitos enquanto por aí se fala da tal da crise.

Crise e desemprego são duas palavras impactantes que voltaram a compor o nosso cotidiano. Queria mesmo poder tomar o lanche nas margens dos conflitos.

Ambiente ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 06/00/2009

Que tão intensa é a nossa relação com o ambiente? Hipóteses: em casa, o cachorro late, o familiar grita e o outro ouve música; no trabalho, o telefone toca insistentemente e o patrão repreende; no campo, os pássaros cantam, o córrego flui e o vento sopra; na cidade, a correria nas ruas, o congestionamento no trânsito, o som das buzinas, gente apressada, blocos de concreto e objetos de publicidade dominam o visual.

Vejo a sobreposição de cômodos entre os edifícios e as formas distintas de convivência praticamente no mesmo espaço. Assim é o visual: prédios comerciais de luxo em cuja entrada está o vendedor de discos piratas ou comida barata; uma escola de idiomas que se separa de um consultório médico por uma simples parede; esconderijos ou o porão da casa como anexos ocultos; e finalmente me impressiona que possa haver parques ecológicos rodeados por uma cidade grande ou por um canavial.

Ouço o motor de automóveis quase como uma orquestra de fundo. Não posso deixar de mencionar que o eco da vizinhança soa constantemente apesar dos meus esforços para conter o volume externo. Pessoas que passam conversando todo o tempo no corredor da unidade habitacional onde eu moro, crianças contando seus chistes entre elas, os vendedores de água e o reparador de cortinas, e o que atende o celular diariamente na janela do seu apartamento porque até aí chega o sinal.

Cheiro de cidade grande é estupefaciente e inebriante. Em algumas ocasiões, porém, alcança-me o aroma do bolo que o vizinho prepara, do charuto que o avô fuma ou dos vestígios de uma ração saborosa que o animal de estimação já digeriu e dejetou. Qualquer ambiente sempre oferece opções vastas de experimentação que variam em função de onde nos inserimos e como nos deslocamos nele. Seja no campo ou na cidade, em casa ou no transporte, dentro ou fora de algum lugar.

Sinto o sabor do ambiente e tateio-o para ver se é de verdade. Há os que não crêem nem vendo; começam a acreditar quando escutam; aceitam quando cheiram; e se conformam quando tocam a concretude. O ambiente, no entanto, determinamo-lo, por uma parte, e aceitamo-lo como é, por outra. Se o sol está forte, fecha-se a cortina; se o trânsito está pesado, liga-se o rádio para distrair; se a vizinha é bonita, espia-se pela janela. Neste caso, faltou algum sentido para atravessar os limites das paredes.

Apuremos os sentidos. Assim a experiência poderá ser outra: mais envolvente. No início deste texto tridimensional, ou quadridimensional se o leitor também participa, falei que nos esforçamos para tanto entrar no ambiente quanto para sair dele. Tenho mania de expor imagem e som com palavras. Aqui é questão de espaço. Reivindique o seu.

A Disputada ( Ronaldo Duran )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 02/00/2009

O ditado diz que temos cinco minutos de fama. Em termos de relacionamento afetivo o momento é agora. Tive neuroses na adolescência: parecia que todas as minhas amigas se davam bem com os garotos e eu não. Na época, lutava desesperadamente para me esquivar da posição de segura-vela. Aos dezenove anos, pitou a primeira paixão. A vida do lado dele era a mais bela, fascinante, encantadora. Longe, pior que estar na pele de paciente terminal.

Nós nos enamoramos. Um namoro de seis anos. Faltou o casório para coroar a paixão. Mas a paixão fugiu do altar antes de nós. Boquiabertos, nos estranhamos. Os nossos interesses ficaram diferentes, conflitantes. Esquisito, eu parecia falar português e ele russo. A desconfiança melindra nossa relação. Passávamos à condição de estranhos. Eu até quis racionalizar: não me via na condição de casada, com filhos, tão cedo. Nada. Era desculpa para não admitir a frustração do fim do amor.

Demos passaporte livre um para o outro. Fiquei assustada. Aos 28 anos, tá, é complicado querer ficar sozinha. Não só pelo amasso tarado no banco traseiro do Astra, pelas beijocas quentes trocadas numa pizzaria da moda, pelos corpos aconchegados numa noite de inverno, ou ter que ficar sozinha na balada. Algo mais sublime. Era a cumplicidade que encontramos no parceiro que nos ama, a razão de ser desta curta estada na Terra. Que banal seria se a vida se resumisse a dormir, ir no banheiro, almoçar. Tem que haver um cara que valha a pena, sim.

Solitária? Talvez por parar de me preocupar em ter alguém, que eles apareceram. Há dois meses conheci um professor de História da Arte no ônibus São Paulo-Caçapava. Ele vai duas vezes para a USP. Além de professor, é pintor, e que talento. O papo dele é sadio, que dá paz de espírito. Há mais dois caras além do professor que parecem disputar minha atenção. Um rapaz lindo, quase de cair o queixo, bancário, que todos os dias eu vejo na volta. O outro é um alto funcionário do Ministério da Fazenda. Todos estão atrás de mim. Olha meus cinco minutos de fama aí.

Os três me fizeram proposta: um de forma velada, outro de maneira escancarada. Quem eu devo seguir? Sou todo torpor. Seria tão mais fácil se houvesse apenas uma possibilidade porque mais de duas dão um nó na cabeça. Qual instinto vai prevalecer em mim: o da grana, o da sensibilidade ou o da beleza? Todos eles têm um pouquinho das três, contudo, cada um tem uma em excesso.

Pra que encanar? Posso escolher nenhum pelo simples motivo de que nem tudo que reluz é ouro. O fato de ter tido a oportunidade destas opções já me satisfaz. É excelente remédio para curar qualquer trauma de auto-imagem da adolescência. E eu sou mulher moderna. Quero viver de minha carreira profissional. Ter orgulho do que faço, além de um cara legal do lado para atravessar a espinhosa vida em deliciosa companhia.