segunda-feira, 20 de abril de 2009

C’est Jolie, La Sociologue ( Ronaldo Duran )


Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 19/02/2009


Se bocejo é culpa do calor. Pode parecer implicância de europeu, mas não é. A frase o calor está castigando escutei várias vezes nestes três dias em São Paulo. A I Jornada Paulista Sobre Crianças Abandonadas fornece um panorama da realidade brasileira.

Recebi o convite de um de meus ex-orientandos e quis retribuir a gentileza de ter tido vários alunos brasileiros nos meus mais de dez anos de livre docente na Sorbonne. Pesou também a emoção que é visitar a terra dos mitos Florestan Fernandes e Milton Santos.

Definitivamente, o calor me amolece.

De repente, ela se levanta. Caminha para frente da platéia. Sua vez de expor. Ela me toma a atenção de uma forma pouco comum. Não sou assexuado, mas raramente noto o corpo de uma expositora. Levo muito a sério meu trabalho, e que me lembro, jamais faltei com respeito para com minhas colegas de profissão. Mas ela me abraçou a alma. Talvez a pele morena? Ou o gingado do corpo? Quem sabe a sensualidade despretensiosa em sua fala?

Vai ver é culpa de Jorge Amado. Há uns seis meses, adentrei na leitura do genial baiano, caprichoso porta-voz da cultura brasileira, a qual é mistura ímpar entre negro, índio, branco e asiático. Seria a personificação de Gabriela Cravo e Canela a moça que vejo? Esquivo-me do meu tradicional mau-humor foucaultiano, dando um tempo até para o gramscinismo que domina meu pensamento nos dias normais. A blusa vermelha combinado com os delicados sapatos, o penteado simples, a calça que parece cair como luvas em suas belas curvas. Diante dela eu prefiro ser positivista do que negativista.

O Brasil me encanta. Nunca o encarei como turismo sexual. Longe disso. Gosto de sua gente. Simpática, acolhedora.

Estou me sentido mal. Ela se esforçando para apresentar o trabalho científico, que deve ter tomado noites inteiras e, com o incentivo pouco dado no Brasil, dá-se para imaginar como sofrera para formar-se. E eu aqui olhando suas curvas. Sinto-me desonesto. Tento desviar o olhar. Centrar-me nas tabelas estatísticas, na explanação acurada. Que nada. Minha visão é arrastada para ela. A situação é incomoda.

Ela é a Iracema tão bem cantada por José de Alencar. C’est jolie, la sociologue. Obrigado Brasil por brindar a humanidade: a beleza de mãos dadas com a aridez sociológica. La jeune femme, c’est une lune éclatante. Je m’écorche mon coeur. A apresentação terminou. Não ousei olhar para suas nádegas. Quero, sim, guardar a imagem vivaz de sua exposição, sentada ou em pé, esbravejando sobre a injustiça social, sem sufocar seu ser feminino.

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