segunda-feira, 20 de abril de 2009

O giz do sacrifício ( Sanronald )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Sanronald ( san.ronald@hotmail.com ) :: 13/02/2009

Um jovem destemido e bem resolvido decidiu para o desespero de seu clã que seria professor. Sua mãe num retumbante ah! ah ! ah! disparou: “_Alegria de professor somente durante a cerimônia de formatura. O que virá depois será pura ilusão”. O jovem parou por um instante e pensou: “Minha mãe em parte tem razão, mais nem só de anel de grau se enfeita o dedo de um bom professor, mas de muitos calos e pó de giz, adquirido na árdua missão de ensinar e aprender”.

Seu pai foi além: “_Não queira se aventurar, não existe luz no fim do túnel. Lembre-se de Colombo que quando saiu da Espanha não sabia aonde chegaria e quando chegou à América não sabia onde estava. Morreu pobre e, esquecido acreditando piamente ter encontrado o caminho para as Índias”. O jovem parou por um instante e pensou: “Meu pai em parte tem razão, Colombo em seu tempo não teve os flashes dados às ‘bundas televisivas’ que abundam em nosso meio, mas graças à sua ousadia de viajar por mares obscuros desvendou a outros o caminho para o novo mundo”.

Seus amigos de escola o imaginaram em uma promissora carreira médica, além do que seria chamado de “Doutor” O jovem de fato não escondia sua admiração por essa profissão, mas lembrou dos muitos médicos de sua cidade que consultam seus pacientes em hospitais públicos e encaminham-nos a tratarem de suas doenças crônicas em suas clínicas particulares. Houve também quem o visse desenvolvendo atividade forense alinhado em um elegante terno, tendo nas mãos uma linda pasta de couro.

O jovem suou efusivamente e pensou nos muitos advogados do diabo que magistralmente se propõem a defender as possíveis causas dos fraudadores de recursos da educação que movidos por uma atitude nada pedagógica, se apropriam de verbas destinadas à merenda, ao transporte e ao livro didático escolar tão imprescindíveis aos estudantes de seu país. Diante da iminente perda do sentido moral e ideológico de tais profissões o jovem ardeu-se profundamente.

Não convencido, seu clã resolveu submetê-lo ao oráculo de Delfos, para fazê-lo ouvir o presságio da sacerdotisa Pítia que profetizou: “_Meu caro! Estás destinado a passar parte de sua história protestando e reivindicando a reposição do salário justo que nunca terás. Ouvirás os deuses de seu país dizerem: ‘_Reposição salarial só para os nobres do poderes executivo, legislativo e judiciário e a quem mais interessar para o bem do clientelismo público’”.

Apesar dos contras, o jovem continuou firme no seu propósito de ser professor e vislumbrou em sua mente outras cenas da vida real. Lá estavam o cacique Chicão, Chico Mendes, Zumbi dos Palmares, Irmã Dulce da Bahia e Paulo Freire.

E agora o professor decidiu colocar luz no quadro escuro e usar seu próprio giz para educar seu povo.

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