sábado, 21 de fevereiro de 2009

A Disputada ( Ronaldo Duran )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 02/00/2009

O ditado diz que temos cinco minutos de fama. Em termos de relacionamento afetivo o momento é agora. Tive neuroses na adolescência: parecia que todas as minhas amigas se davam bem com os garotos e eu não. Na época, lutava desesperadamente para me esquivar da posição de segura-vela. Aos dezenove anos, pitou a primeira paixão. A vida do lado dele era a mais bela, fascinante, encantadora. Longe, pior que estar na pele de paciente terminal.

Nós nos enamoramos. Um namoro de seis anos. Faltou o casório para coroar a paixão. Mas a paixão fugiu do altar antes de nós. Boquiabertos, nos estranhamos. Os nossos interesses ficaram diferentes, conflitantes. Esquisito, eu parecia falar português e ele russo. A desconfiança melindra nossa relação. Passávamos à condição de estranhos. Eu até quis racionalizar: não me via na condição de casada, com filhos, tão cedo. Nada. Era desculpa para não admitir a frustração do fim do amor.

Demos passaporte livre um para o outro. Fiquei assustada. Aos 28 anos, tá, é complicado querer ficar sozinha. Não só pelo amasso tarado no banco traseiro do Astra, pelas beijocas quentes trocadas numa pizzaria da moda, pelos corpos aconchegados numa noite de inverno, ou ter que ficar sozinha na balada. Algo mais sublime. Era a cumplicidade que encontramos no parceiro que nos ama, a razão de ser desta curta estada na Terra. Que banal seria se a vida se resumisse a dormir, ir no banheiro, almoçar. Tem que haver um cara que valha a pena, sim.

Solitária? Talvez por parar de me preocupar em ter alguém, que eles apareceram. Há dois meses conheci um professor de História da Arte no ônibus São Paulo-Caçapava. Ele vai duas vezes para a USP. Além de professor, é pintor, e que talento. O papo dele é sadio, que dá paz de espírito. Há mais dois caras além do professor que parecem disputar minha atenção. Um rapaz lindo, quase de cair o queixo, bancário, que todos os dias eu vejo na volta. O outro é um alto funcionário do Ministério da Fazenda. Todos estão atrás de mim. Olha meus cinco minutos de fama aí.

Os três me fizeram proposta: um de forma velada, outro de maneira escancarada. Quem eu devo seguir? Sou todo torpor. Seria tão mais fácil se houvesse apenas uma possibilidade porque mais de duas dão um nó na cabeça. Qual instinto vai prevalecer em mim: o da grana, o da sensibilidade ou o da beleza? Todos eles têm um pouquinho das três, contudo, cada um tem uma em excesso.

Pra que encanar? Posso escolher nenhum pelo simples motivo de que nem tudo que reluz é ouro. O fato de ter tido a oportunidade destas opções já me satisfaz. É excelente remédio para curar qualquer trauma de auto-imagem da adolescência. E eu sou mulher moderna. Quero viver de minha carreira profissional. Ter orgulho do que faço, além de um cara legal do lado para atravessar a espinhosa vida em deliciosa companhia.

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