sábado, 21 de fevereiro de 2009

Turma do fundão ( Sanronald )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Sanronald ( san.ronald@hotmail.com ) :: 29/12/2008

"Raspa bem, que o bom está no fundo" - Disse a experimentada cozinheira, ao servir aquela deliciosa canjica. Quem segue seu conselho por certo não se decepciona. Difícil mesmo é encontrar alguém que não tenha provado o gostinho irresistível do fundo da panela. No fundo, no fundo, todos parecem buscar o néctar existencial para sua sobrevivência quando o seu mundo parece sem sabor, desprovido de sentido. Até mesmo o aluno que se refugia no fundo da sala de aula. Como compreender essa atitude. Seria ela normal? Ou Patológica?

A normalidade seria aceitável do ponto de vista de que no arranjo arquitetônico de carteiras adotado pela maioria das escolas os assentos periféricos tornam-se convidativos, principalmente para o aluno de baixo nível social ou com dificuldade escolar. Consciente ou não da escolha, acentua ainda mais sua exclusão. No entanto, esse jogo sutil de empurra-empurra possui exceções quando se trata de aluno com padrão cultural satisfatório, e que estrategicamente acaba compondo a detestada turma do fundão.

Pela lente normativa de um professor normal, o aluno do fundão é um problema: relaxado, apático, distante, parece não querer nada com nada. Essa perspectiva sim é patológica, deficitária, por não permitir sua auto-identificação, sem ter ao menos a possibilidade de revelar o seu eu verdadeiro, o que pensa e o que sabe e não sabe sobre os conteúdos ensinados. Um professor normal tende a distanciar-se da turma do fundão, voltando sua atenção quase que exclusivamente para os que compõem a comissão de frente, formada basicamente por sujeitos bem resolvidos socialmente, não tanto quanto o professor que tenta impedir com sua metralhadora de palavras a decolagem dos insistentes aviõezinhos, que partem do fundo da sala e desafiam o céu de sua paciência.

A turma do fundão é um problema a ser explorado por quem guia sua prática pedagógica pela sensibilidade, alguém capaz de enxergar no fundo dos olhos do aluno, não apenas os ciscos e as traves, mas principalmente os vales, as montanhas e as colinas. No entanto a miopia pedagógica de quem aposta na eficácia de seu olho clínico, tem ceifado muitos brotos.

Quando Paty, pedagoga da cidade de Benquerença, assumiu o comando da turma de 3ª série do ensino fundamental da Escola Raio X, fora convencida por seus pares de que acabava de mergulhar em seu purgatório astral, como penitência por ser esposa de um adversário político do prefeito local, já que até pouco tempo era prestigiada por ser diretora de uma importante escola de vocação agrícola. Era a terceira professora a assumir o posto no mesmo ano em que suas antecessoras fugiram da classe como o capeta foge da cruz. Chorou, resmungou, apelou, mas de nada adiantou. Alguns até consideraram a pena suave, pois não fazia parte do casting de professores efetivos. Era pegar ou largar. Pegou para não ficar desempregada.

Seu primeiro dia de aula foi movimentadíssimo. Um bando de alunos espevitados, daqueles que até cegonha evita dar carona, saudaram-na com muita bagunça. Logo de entrada teve que apartar a aparente briga em grupo de Tartarugas Ninjas que trocavam sopapos com outro grupo de Power Rangers. No dia seguinte nem bem acabara de fazer a chamada da turma, quando a aluna Pocahontas da classe, gritou: _Professora? O Vinicius pregou chiclete no meu cabelo. Uma sonora gargalhada ecoou por toda escola.

Valei-me São Jorge Guerreiro, suspirou Taty, em meio a maior saia justa em que indignamente acabaram de metê-la. Querendo dominar o dragão não encontrou outra alternativa senão colocar o apimentado Vinicius contra o paredão de sua autoridade máxima: _Expulso-o para fora da sala de aula. O danadinho bem que tentou se desculpar, mas era tarde demais. Taty para reforçar seu intento fez uso de uma tática infalível, que consiste em dizer para o vilão em tom bem ameaçador: _Ou saio eu, ou sai você? Enfim, sob os olhares decepcionados dos colegas, Vinícius a estrela da turma do fundão retirou-se apagado.

Forjando tranqüilidade procurou envolver os alunos ficantes em uma dinâmica de grupo que consistia na leitura de imagem de diversas paisagens, distribuídas aleatoriamente entre eles. O objetivo era sondar o conhecimento de mundo da turma. As imagens foram lidas minuciosamente em seu texto e contexto com precisão de detalhes que Taty pensou estar diante de discípulos de Sherlock Holmes. Do lado de fora pela veneziana da janela uns olhinhos curiosos acompanhavam atentamente aquela aventura que fora além dos conteúdos básicos por vezes ensinados sem vida e sem cor.

Não demorou muito e um aviãozinho de papel cruzou o céu da sala de aula para alegria da turma do fundão que gritou em coro: _Foi o Vinícius, professora! Em sua asa havia um pedido: _Deixa eu entrar professora? Taty caiu em si e reconsiderou sua decisão, pois no fundo sabia que a expulsão do pequeno Brother havia mexido profundamente com seu eu. No entanto sua compaixão deu lugar a uma exigência, pediu que escolhesse uma gravura e desse mostra de sua competência leitora. Vinícius, prontamente escolheu uma que fazia alusão a sua brincadeira preferida: _Soltar pipa. E com muita desenvoltura falou das várias nomenclaturas atribuídas ao brinquedo como: _Papagaio, rabiola, curica, cangula. De sua forma, tamanho, material usado e custo. De sua linguagem específica: _Lau-vai, discai, rabada, laço porco, gasguela, penoso etc. Do risco de soltá-la próximo da rede elétrica. Sua aventura lúdica descritiva deixou entrever que em cada moleque com sua pipa na mão esconde-se um menino, gente que ao mesmo tempo em que brinca, imagina, sonha e aprende.

Taty confessou posteriormente que a descrição lúdica feita por Vinícius, trouxera luz aos seus saberes necessários. Despojada de sua miopia docente, enfim pode enxergar sem o filtro alheio do descrédito o que é que a turma do fundão tem. Como descobridora dos sete mares avançou destemidamente para as águas vivas dos que habitavam as profundezas da sala de aula de sua classe. Não viu leviatãs, cobras grandes, ostras sinistras, e nem por certo adoráveis botos cor de rosa. Viu sim um universo de brotos que bem cuidados passaram a produzir flores e frutos.

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