sábado, 21 de fevereiro de 2009

Nunca desista dos seus sonhos ( Mauricio Martins )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Mauricio Martins ( jmauric@click21.com.br ) :: :: 26/01/2009

Lembro como se fosse hoje, o ano era 1972, nós morávamos em Bragança, minha terra natal, Eu tinha então 16 anos, quando minha querida mãe me deu a notícia, era preciso mudar de cidade, meu padrasto recebera uma proposta irrecusável para gerenciar uma transportadora em Belém, ela iria embora junto com meu irmão dois anos mais novo, mas eu precisava ficar, depois dos estudos eu seguiria para a capital Paraense.

A princípio mesmo com uma forte dor no peito de imensa saudade, concordei com ela, eu estava no colegial, não podia deixar meus estudos pela metade e assim aconteceu, durante dois anos morei junto com minha prima recém casada com um americano Michael O´grady, foram dias difíceis, porém de grande aprendizado para minha formação moral, pois todas as coisas ocorridas na minha vida de adolescente fortaleceram meu caráter e assim construí minha personalidade, e foi assim que nasceu dentro de mim um sonho, prometi a mim mesmo que um dia me formaria e constituiria minha família, uma esposa, filhos, uma família unida, onde não haveria separação entre pai e filhos, onde compartilharíamos sempre juntas nossas alegrias e tristezas.

Enfim, no ano de 1974 cheguei à Belém, onde graças a Deus voltava para os braços carinhosos de mamãe, e no mesmo ano fui admitido na Escola Técnica Federal do Pará no curso de Telecomunicações, e logo consegui um emprego para manter meus estudos, fui trabalhar com o Dr.Félix Emanuel Teixeira de Oliveira, um bom homem, grande amigo, o responsável pela mudança de um garoto interiorano com muita vontade de vencer, no homem determinado em ser um cidadão consciente de seus deveres e obrigações para o fortalecimento de uma sociedade justa e fraterna.

Numa manhã de 24 de junho de 1979 cheguei à Imperatriz, após quatro maravilhosos anos em Belém, estudando na Escola Técnica Federal do Pará o curso de Telecomunicações me formei e conseguira ser aprovado em concurso na EMBRATEL, ao consultar minha família e amigos, optei em morar nesta cidade, como precisava fornecer um endereço no meu novo emprego, por indicação de um vizinho conheci a família de uma senhora guerreira e desbravadora em Imperatriz, DOLORES BORGES MACEDO, onde fui muito bem recebido e durante aproximadamente dois meses tive o prazer de morar com esta família, de onde nasceu uma bela e forte amizade até os dias de hoje.

Logo em seguida mudei para a “republica” da Embratel, localizada na Rua Bahia, de novo o desafio de morar sozinho, longe da minha Mãe e Irmão, mas agora por pouco tempo, era chegada à hora de completar meu sonho, construir minha própria família, logo encontrei uma linda jovem e me apaixonei, seu nome INALDA LIMA CORRÊA logo casamos e tivemos nossa primeira filha, Talita Lima Martins, uma linda menina, achei que não precisava de mais nada, era um homem feliz tinha duas belas mulheres, pensava em apenas curtir a vida, mas numa tarde de fevereiro, o inesperado aconteceu, uma tragédia se abateu sobre nós, nossa menina nos deixou, no seu lugar nada mais havia, restava apenas guardar mentalmente seu perfume, foram dias de profunda tristeza e dor, apesar de tudo nunca perdemos nossa fé e esperança, o sonho tinha que continuar e Deus, sempre e somente Ele teve piedade de nós, e nos presenteou com mais quatro filhos, duas meninas Thayná e Bruna e dois garotos gêmeos Pedro Henrique e João Luciano, agora sim minha felicidade estava completa, afinal esta é a minha família “Lima Martins”.

Passados vinte e cinco anos do nosso casamento, tenho orgulho em afirmar isto: Casei para nunca descasar,e embora toda aquela dor de uma intensa saudade volte a machucar meu coração, com a partida das minhas meninas, Thayná e Bruna, ambas em busca dos seus sonhos, Thayná Lima Martins que passou em medicina na UEPA quer se formar em pediatria, cuidar da saúde das criancinhas e um dia ter sua própria família, Bruna Maria Lima Martins cursando Engenharia Ambiental na UEPA e Oceonagrafia na UFPA, quer cuidar do Planeta, melhorar a qualidade de vida da Mãe Terra, lutar para que todos tenham direitos a viver num mundo melhor. Meu filho João Luciano Lima Martins recém aprovado na UEMA em História, busca criar sua própria,quer conhecer outros Países. Vão com Deus filhos e que nossa Nossa Senhora de Nazaré, proteja todos vocês, quando a saudade bater, lembrem-se, estamos aqui, sempre juntos e torcendo muito por vocês, afinal não falei, quando Deus me deu vocês, ELE estava namorando, um belo e feliz destino para todos nós.

“Cantai ao Senhor um canto novo, cantai ao Senhor toda a terra, Anunciai entre as nações a sua glória e entre os povos as suas maravilhas.” Salmo 96.

Obs.: Esta crônica é dedicada a minha querida esposa Inalda Lima Martins, sem ela Eu seria um João ninguém, com ela Eu sou ...

A Lanchonete ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 11/00/2009

Incomoda-me a sensação de conflito quando estou a passeio em algum lugar, distraído da rotina ou fazendo o possível para desfrutar dos minutos de ociosidade. Tento esquecer que as dificuldades e as mazelas existem, ou colocá-las um pouco de lado, mas não dá. Coça a orelha.

Quando falo de conflito, refiro-me ao que tantas vezes fechamos os olhos ou fingimos não ver para não sentir a dor que não merecemos, como a dura vida de mendigos, pedintes, viciados e outros gêneros de excluídos e sofredores.

Ao fim, acabo tendo que aceitar os conflitos quando menos espero e faço, em seguida, algumas reflexões sobre a situação antes que eu perca a oportunidade de entravar uma nova discussão construtiva. E parece que, nestes momentos, nosso pensamento atinge maior fluidez.

Uma dessas ocorreu enquanto eu pagava a conta de uma refeição rápida numa lanchonete e notei que vários funcionários que estavam de frente na cozinha me olhavam como que tentando expressar algo. O recinto era aberto para satisfação dos clientes desconfiados. Virou moda esse acesso facilitado às cozinhas nos estabelecimentos que trabalham com refeição. De duas, uma: ou é para provar que o lugar tem higiene ou para desafiar a coragem do cliente.

Pensei que estivesse ficando louco. Será que lhes incomodava o fato de eu estar passeando, alimentando-me e de certa forma divertindo-me com os amigos no fim de semana enquanto eles tinham que suportar o calor que se levantava da chapa e um turno extenuante de serviço? A imaginação aflora.

Melhor se fosse por outra razão. Mas, espera! Não tinha um abacaxi na cabeça, nem a beleza de um galã de cinema, nem fiz nada que merecesse olhares tão perscrutadores vindos de um mesmo grupo de trabalhadores.

Quer saber? Tempos depois, nessa incerteza de crise econômica mundial em que não tem um santo que se salva nem vela que suporte ficar muito tempo acesa, concluí que eu é que deveria ter-lhes olhado daquela maneira e pensado que, com o aumento crescente do desemprego no mundo, eu os invejava porque eles tinham motivos para comemorar de estar aí.

E os números têm comprovado esta atitude porque o desemprego é um tema que se revigorou no mundo, voltou para inquietar os analistas e os tomadores de decisão como um problema mal resolvido.

No fim de janeiro, a Organização Internacional do Trabalho (OIT), que é uma agência da Organização das Nações Unidas (ONU), anunciou que este ano de 2009 poderá representar a perda de até 51 milhões de empregos devido à crise econômica mundial. Este número indica a previsão mais nefasta.

Conflitos que aparecem em hora errada têm serventia porque mostram que o prazer se confunde com a dor, a diversão com a infelicidade, e a incerteza com a dúvida.

Valorizo a informação que se lê na expressão facial antes mesmo de os lábios vibrarem, ainda que tenha continuado sem saber qual foi a mensagem intencional na lanchonete. De qualquer maneira, agora comunico sobre a do desemprego, que, esta sim, vai perseguir muitos enquanto por aí se fala da tal da crise.

Crise e desemprego são duas palavras impactantes que voltaram a compor o nosso cotidiano. Queria mesmo poder tomar o lanche nas margens dos conflitos.

Ambiente ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 06/00/2009

Que tão intensa é a nossa relação com o ambiente? Hipóteses: em casa, o cachorro late, o familiar grita e o outro ouve música; no trabalho, o telefone toca insistentemente e o patrão repreende; no campo, os pássaros cantam, o córrego flui e o vento sopra; na cidade, a correria nas ruas, o congestionamento no trânsito, o som das buzinas, gente apressada, blocos de concreto e objetos de publicidade dominam o visual.

Vejo a sobreposição de cômodos entre os edifícios e as formas distintas de convivência praticamente no mesmo espaço. Assim é o visual: prédios comerciais de luxo em cuja entrada está o vendedor de discos piratas ou comida barata; uma escola de idiomas que se separa de um consultório médico por uma simples parede; esconderijos ou o porão da casa como anexos ocultos; e finalmente me impressiona que possa haver parques ecológicos rodeados por uma cidade grande ou por um canavial.

Ouço o motor de automóveis quase como uma orquestra de fundo. Não posso deixar de mencionar que o eco da vizinhança soa constantemente apesar dos meus esforços para conter o volume externo. Pessoas que passam conversando todo o tempo no corredor da unidade habitacional onde eu moro, crianças contando seus chistes entre elas, os vendedores de água e o reparador de cortinas, e o que atende o celular diariamente na janela do seu apartamento porque até aí chega o sinal.

Cheiro de cidade grande é estupefaciente e inebriante. Em algumas ocasiões, porém, alcança-me o aroma do bolo que o vizinho prepara, do charuto que o avô fuma ou dos vestígios de uma ração saborosa que o animal de estimação já digeriu e dejetou. Qualquer ambiente sempre oferece opções vastas de experimentação que variam em função de onde nos inserimos e como nos deslocamos nele. Seja no campo ou na cidade, em casa ou no transporte, dentro ou fora de algum lugar.

Sinto o sabor do ambiente e tateio-o para ver se é de verdade. Há os que não crêem nem vendo; começam a acreditar quando escutam; aceitam quando cheiram; e se conformam quando tocam a concretude. O ambiente, no entanto, determinamo-lo, por uma parte, e aceitamo-lo como é, por outra. Se o sol está forte, fecha-se a cortina; se o trânsito está pesado, liga-se o rádio para distrair; se a vizinha é bonita, espia-se pela janela. Neste caso, faltou algum sentido para atravessar os limites das paredes.

Apuremos os sentidos. Assim a experiência poderá ser outra: mais envolvente. No início deste texto tridimensional, ou quadridimensional se o leitor também participa, falei que nos esforçamos para tanto entrar no ambiente quanto para sair dele. Tenho mania de expor imagem e som com palavras. Aqui é questão de espaço. Reivindique o seu.

A Disputada ( Ronaldo Duran )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 02/00/2009

O ditado diz que temos cinco minutos de fama. Em termos de relacionamento afetivo o momento é agora. Tive neuroses na adolescência: parecia que todas as minhas amigas se davam bem com os garotos e eu não. Na época, lutava desesperadamente para me esquivar da posição de segura-vela. Aos dezenove anos, pitou a primeira paixão. A vida do lado dele era a mais bela, fascinante, encantadora. Longe, pior que estar na pele de paciente terminal.

Nós nos enamoramos. Um namoro de seis anos. Faltou o casório para coroar a paixão. Mas a paixão fugiu do altar antes de nós. Boquiabertos, nos estranhamos. Os nossos interesses ficaram diferentes, conflitantes. Esquisito, eu parecia falar português e ele russo. A desconfiança melindra nossa relação. Passávamos à condição de estranhos. Eu até quis racionalizar: não me via na condição de casada, com filhos, tão cedo. Nada. Era desculpa para não admitir a frustração do fim do amor.

Demos passaporte livre um para o outro. Fiquei assustada. Aos 28 anos, tá, é complicado querer ficar sozinha. Não só pelo amasso tarado no banco traseiro do Astra, pelas beijocas quentes trocadas numa pizzaria da moda, pelos corpos aconchegados numa noite de inverno, ou ter que ficar sozinha na balada. Algo mais sublime. Era a cumplicidade que encontramos no parceiro que nos ama, a razão de ser desta curta estada na Terra. Que banal seria se a vida se resumisse a dormir, ir no banheiro, almoçar. Tem que haver um cara que valha a pena, sim.

Solitária? Talvez por parar de me preocupar em ter alguém, que eles apareceram. Há dois meses conheci um professor de História da Arte no ônibus São Paulo-Caçapava. Ele vai duas vezes para a USP. Além de professor, é pintor, e que talento. O papo dele é sadio, que dá paz de espírito. Há mais dois caras além do professor que parecem disputar minha atenção. Um rapaz lindo, quase de cair o queixo, bancário, que todos os dias eu vejo na volta. O outro é um alto funcionário do Ministério da Fazenda. Todos estão atrás de mim. Olha meus cinco minutos de fama aí.

Os três me fizeram proposta: um de forma velada, outro de maneira escancarada. Quem eu devo seguir? Sou todo torpor. Seria tão mais fácil se houvesse apenas uma possibilidade porque mais de duas dão um nó na cabeça. Qual instinto vai prevalecer em mim: o da grana, o da sensibilidade ou o da beleza? Todos eles têm um pouquinho das três, contudo, cada um tem uma em excesso.

Pra que encanar? Posso escolher nenhum pelo simples motivo de que nem tudo que reluz é ouro. O fato de ter tido a oportunidade destas opções já me satisfaz. É excelente remédio para curar qualquer trauma de auto-imagem da adolescência. E eu sou mulher moderna. Quero viver de minha carreira profissional. Ter orgulho do que faço, além de um cara legal do lado para atravessar a espinhosa vida em deliciosa companhia.

Turma do fundão ( Sanronald )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Sanronald ( san.ronald@hotmail.com ) :: 29/12/2008

"Raspa bem, que o bom está no fundo" - Disse a experimentada cozinheira, ao servir aquela deliciosa canjica. Quem segue seu conselho por certo não se decepciona. Difícil mesmo é encontrar alguém que não tenha provado o gostinho irresistível do fundo da panela. No fundo, no fundo, todos parecem buscar o néctar existencial para sua sobrevivência quando o seu mundo parece sem sabor, desprovido de sentido. Até mesmo o aluno que se refugia no fundo da sala de aula. Como compreender essa atitude. Seria ela normal? Ou Patológica?

A normalidade seria aceitável do ponto de vista de que no arranjo arquitetônico de carteiras adotado pela maioria das escolas os assentos periféricos tornam-se convidativos, principalmente para o aluno de baixo nível social ou com dificuldade escolar. Consciente ou não da escolha, acentua ainda mais sua exclusão. No entanto, esse jogo sutil de empurra-empurra possui exceções quando se trata de aluno com padrão cultural satisfatório, e que estrategicamente acaba compondo a detestada turma do fundão.

Pela lente normativa de um professor normal, o aluno do fundão é um problema: relaxado, apático, distante, parece não querer nada com nada. Essa perspectiva sim é patológica, deficitária, por não permitir sua auto-identificação, sem ter ao menos a possibilidade de revelar o seu eu verdadeiro, o que pensa e o que sabe e não sabe sobre os conteúdos ensinados. Um professor normal tende a distanciar-se da turma do fundão, voltando sua atenção quase que exclusivamente para os que compõem a comissão de frente, formada basicamente por sujeitos bem resolvidos socialmente, não tanto quanto o professor que tenta impedir com sua metralhadora de palavras a decolagem dos insistentes aviõezinhos, que partem do fundo da sala e desafiam o céu de sua paciência.

A turma do fundão é um problema a ser explorado por quem guia sua prática pedagógica pela sensibilidade, alguém capaz de enxergar no fundo dos olhos do aluno, não apenas os ciscos e as traves, mas principalmente os vales, as montanhas e as colinas. No entanto a miopia pedagógica de quem aposta na eficácia de seu olho clínico, tem ceifado muitos brotos.

Quando Paty, pedagoga da cidade de Benquerença, assumiu o comando da turma de 3ª série do ensino fundamental da Escola Raio X, fora convencida por seus pares de que acabava de mergulhar em seu purgatório astral, como penitência por ser esposa de um adversário político do prefeito local, já que até pouco tempo era prestigiada por ser diretora de uma importante escola de vocação agrícola. Era a terceira professora a assumir o posto no mesmo ano em que suas antecessoras fugiram da classe como o capeta foge da cruz. Chorou, resmungou, apelou, mas de nada adiantou. Alguns até consideraram a pena suave, pois não fazia parte do casting de professores efetivos. Era pegar ou largar. Pegou para não ficar desempregada.

Seu primeiro dia de aula foi movimentadíssimo. Um bando de alunos espevitados, daqueles que até cegonha evita dar carona, saudaram-na com muita bagunça. Logo de entrada teve que apartar a aparente briga em grupo de Tartarugas Ninjas que trocavam sopapos com outro grupo de Power Rangers. No dia seguinte nem bem acabara de fazer a chamada da turma, quando a aluna Pocahontas da classe, gritou: _Professora? O Vinicius pregou chiclete no meu cabelo. Uma sonora gargalhada ecoou por toda escola.

Valei-me São Jorge Guerreiro, suspirou Taty, em meio a maior saia justa em que indignamente acabaram de metê-la. Querendo dominar o dragão não encontrou outra alternativa senão colocar o apimentado Vinicius contra o paredão de sua autoridade máxima: _Expulso-o para fora da sala de aula. O danadinho bem que tentou se desculpar, mas era tarde demais. Taty para reforçar seu intento fez uso de uma tática infalível, que consiste em dizer para o vilão em tom bem ameaçador: _Ou saio eu, ou sai você? Enfim, sob os olhares decepcionados dos colegas, Vinícius a estrela da turma do fundão retirou-se apagado.

Forjando tranqüilidade procurou envolver os alunos ficantes em uma dinâmica de grupo que consistia na leitura de imagem de diversas paisagens, distribuídas aleatoriamente entre eles. O objetivo era sondar o conhecimento de mundo da turma. As imagens foram lidas minuciosamente em seu texto e contexto com precisão de detalhes que Taty pensou estar diante de discípulos de Sherlock Holmes. Do lado de fora pela veneziana da janela uns olhinhos curiosos acompanhavam atentamente aquela aventura que fora além dos conteúdos básicos por vezes ensinados sem vida e sem cor.

Não demorou muito e um aviãozinho de papel cruzou o céu da sala de aula para alegria da turma do fundão que gritou em coro: _Foi o Vinícius, professora! Em sua asa havia um pedido: _Deixa eu entrar professora? Taty caiu em si e reconsiderou sua decisão, pois no fundo sabia que a expulsão do pequeno Brother havia mexido profundamente com seu eu. No entanto sua compaixão deu lugar a uma exigência, pediu que escolhesse uma gravura e desse mostra de sua competência leitora. Vinícius, prontamente escolheu uma que fazia alusão a sua brincadeira preferida: _Soltar pipa. E com muita desenvoltura falou das várias nomenclaturas atribuídas ao brinquedo como: _Papagaio, rabiola, curica, cangula. De sua forma, tamanho, material usado e custo. De sua linguagem específica: _Lau-vai, discai, rabada, laço porco, gasguela, penoso etc. Do risco de soltá-la próximo da rede elétrica. Sua aventura lúdica descritiva deixou entrever que em cada moleque com sua pipa na mão esconde-se um menino, gente que ao mesmo tempo em que brinca, imagina, sonha e aprende.

Taty confessou posteriormente que a descrição lúdica feita por Vinícius, trouxera luz aos seus saberes necessários. Despojada de sua miopia docente, enfim pode enxergar sem o filtro alheio do descrédito o que é que a turma do fundão tem. Como descobridora dos sete mares avançou destemidamente para as águas vivas dos que habitavam as profundezas da sala de aula de sua classe. Não viu leviatãs, cobras grandes, ostras sinistras, e nem por certo adoráveis botos cor de rosa. Viu sim um universo de brotos que bem cuidados passaram a produzir flores e frutos.

Deficiencias ( Bruno Peron Loureiro )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Bruno Peron Loureiro ( analista relações internacionais ) :: 28/01/2009

Segundo informação mais recente fornecida pela Relação Anual de Informações Sociais (RAIS) do Ministério do Trabalho e Emprego, 1% dos empregos formais, ou o que corresponde a 348 mil postos, é ocupado por portadores de algum tipo de deficiência.

Pensava inicialmente em focalizar os deficientes físicos, mas acabei ampliando a perspectiva para englobar outros gêneros, uma vez que a deficiência é mais comum do que se imagina, embora não se sofram os efeitos com a mesma intensidade de um caso para outro. Refiro-me a dificuldades que aparecem no relacionamento, na acessibilidade em estabelecimentos e meios de transporte, na obtenção de empregos, na necessidade de contar com o apoio da família e de outrem para sobreviver.

Esta redação baseia-se em depoimentos textuais de pessoas que têm algum tipo de deficiência. Acreditei que esta seria uma manera propícia para aproximar-me de suas necessidades e sentimentos do que se ruminasse teorias que falam sobre o problema dentro de um idealismo romântico.

Concluo antes de introduzir o tema, pois achamos que sofremos até vermos que podem existir situações piores. Ademais, os danos vão além do aparente na deficiência, por exemplo, um tetraplégico tem dificuldade no funcionamento dos órgãos.

Assaltou-me, antes mesmo de redatar sobre o tema, um sentimento de vulnerabilidade que me fez questionar por que nos queixamos de ligeiros contratempos enquanto há gente sorrindo sem poder enxergar ou caminhar. Assim me recordo de um grupo de visitas a pessoas enfermas e deficientes, de que tive o privilégio de participar algumas vezes e onde havia, entre outras, uma senhora em coma e um homem com transplante de bacia limitado a ficar deitado quase o tempo todo.

Não tento sugerir uma solução para todas as deficiências, que diferem em gênero e intensidade, senão maneiras de incluir estes portadores de necessidades especiais num convívio harmonioso, sadio e sem o afastamento das relações. Estas práticas envolvem o estímulo a grupos institucionais que lhes dêem atenção, a construção de uma vialidade adequada (como rampas para cadeirantes) e políticas de incentivo à admissão escolar e contratação profissional de deficientes.

Permitir-nos, não importa o esforço que demande, compreender as diferentes necessidades desse segmento da população é um passo na direção da extinção dos preconceitos, inclusive o de que a deficiência incita mais o sentimento de pena que de solidariedade nos demais. Se o preconceito se reduzisse a uma curiosidade sobre o incomum e a situação do deficiente, já seria um princípio. Porém, o rechaço e a exclusão é o seu lado obscuro.

Uma vizinha vinha prometendo-me, havia dois meses, chamar-me para uma visita a sua filha Gina, que sofreu um acidente ao cair da escada aos trinta e três anos e teve quase o corpo inteiro paralisado. Alegava-me a senhora, quando nos encontrávamos no corredor do edifício, que logo me avisaria sobre o momento adequado porque Gina estava naquela semana com problemas de imunidade e comentou que seu marido tinha o receio de que o visitante, qualquer que fosse, ficasse com dó dos pais e da situação.

Até que um dia finalmente esta senhora me chamou quando eu menos esperava, desci as escadas – seu apartamento ficava logo no andar de baixo – e entrei no recinto. Encontrei, para inveja dos comuns, uma pessoa sorridente e um ambiente de carinho. A senhora disse que seu neto, algumas vezes, deitava no colo de Gina e murmurava: “Te amo muito!” e aquela completava com atenção, dedicação e felicidade. Borram-se as fronteiras entre o físico e o imaterial.

Muito pode ser feito pelo governo, organismos não-governamentais, empresas e outros atores sociais para ressocializar pessoas que, por alguma deficiência, tiveram a inserção prejudicada e sofrem algum tipo de preconceito. Formam-se grupos de apoio, como os de restrições auditivas, visuais, motoras e mentais. Assim se concentram estudos e práticas voltados a eles. Finalmente, admoesto que a deficiência física ou mental de alguém não se converta em deficiência de caráter de outrem.

Juventude Transviada ( Mauricio Martins )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Mauricio Martins ( jmauric@click21.com.br ) :: :: 26/01/2009

Este foi o título de um filme estrelado pelo jovem ator James Dean, o mito, que revolucionou seu tempo com papeis marcantes no cinema americano.Até hoje sua personalidade é motivo de pesquisa e analise por parte de estudiosos da mente humana.Pois sua curta passagem entre nós terráqueos teve um impacto na juventude do mundo inteiro, assim como a Tsuname que abalou o continente asiático.

Nicholas Ray, crítico de cinema, num de seus artigo, comenta que: “É a primeira vez na história das formas sensíveis de expressão em que existe uma fissura irremediável entre os filhos e seus pais, entre jovens e velhos, de forma que é completamente impossível, a um compreender o outro”.

Esta introdução, caro leitor, é o despertar aos fatos que nos leva a escrever esta crônica, assim como no filme “Juventude Transviada”, que trata apenas da história de três adolescentes frágeis, mas que são forte o suficiente para saber que não podem suportar o mundo em que vivem, se não em conjunto, suprindo a necessidade um do outro.Este filme é o primeiro documento artístico de uma época que problematiza o fim de elo que ligava uma geração à outra, e talvez o primeiro objeto que mereça ser estudado quando tentamos entender o porque de hoje o “mundo jovem” ter se transformado numa idade privilegiada, por ser “a” idade que movimenta a economia através dos bens de consumo de fácil apelo comercial, como: cinema (DVD), musica(CD), celular, MP-3, carro, moto, Etc.

Qual o anseio de nossos jovens?. O que os inquieta tanto?.Porque não nos atendem, ouvindo nossos conselhos?.Onde erramos como pais?. São perguntas difíceis de responder, afinal, às vezes procuramos transmitir ao filho, aquilo que queremos e achamos certos, sem nos preocupar de transmitir o que é correto, pois existem regras, deveres, obrigações impostas pela sociedade, assim como o excesso de liberdade faz mal, não é justo tolher a criatividade espontânea de um jovem, sobre o risco de transformá-lo num zumbi, inapto para tomada de decisão, fundamental para fortalecer sua personalidade e determinante na formação de seu caráter.Hoje, temos na Internet, uma escola paralela, onde não existe limite para o bem ou para o mal, onde tudo pode, sem a preocupação de diferenciar o certo do errado.

Sem a monitoração permanente de alguém com senso de tolerância, nossos jovens não conseguem ter uma referencia, que os conduza em linha reta, longe dos desvios obscuros da ganância humana.Cabem a nós pais, sempre que possível, cobrar atitudes nobres aos nossos filhos, atitudes estas, que engrandecem o homem e ajudam na formação moral do indivíduo, ensinar os princípios éticos que direcionam para uma competição saudável e leal.A educação (às vezes rígidas) recebida de nossos pais, não se adequa mas aos nossos filhos, pois as leis criadas com o intuito de protegê-los, os torna confusos, pois sem a maldade na alma, porque a punição física do corpo?.

Mas é fundamental dar ao jovem.Deus, pois Ele é o barco seguro, para se navegar nas águas turbulentas da violência, das drogas, do egoísmo, e atracar no porto da fé, na esperança de um Mundo Novo.

Obs:- Esta crônica dedico aos meus filhos João Luciano e Pedro Henrique, “Tente entender, pelo menos uma vez, o que eu nunca disse, Eu amo vocês”.

Que puxa-saco pentelho! ( Ronaldo Duran )

Crônicas & Opiniões | Fonte: Ronaldo Duran ( ronaldo@ronaldoduran.com ) :: 22/01/2009

O que está acontecendo comigo? Todos sempre me chamaram de calmo. Sou do tipo que leva buzinada de mal-amado no trânsito e responde “tenha um bom dia”, ou o cara que a mulher cansa de discutir a relação e ele diz “benzinho, fala mais uma vez”. Encarnavam-me que um defunto seria mais animado que eu. Sempre evito briga, detesto confusão. Fofoca então, vivo fugindo.

Mas ultimamente uma mulher está me irritando. Tantas vezes me esquivei, mas chegou a um ponto que me vi encurralado. A repartição espantou-se, dizendo “tudo bem que ela é de doer, mas daí a te tirar do sério”. Como se eu não tivesse direito a me indignar.

Com 40 anos de idade, já passei por vários empregos. Tão certo como o ar que respiramos é encontrar puxa-saco, pessoas que servem para tornar nossa vida ainda mais espinhosa. Normal. Faz parte.

Porém, esta mulher é peculiar até no modo de puxar o saco.

Certa vez eu envolvido em meu labor e ela um pé na sala onde eu estava e outro no corredor, gritava, quase desvairada, aos quatro ventos. Admito, fora uma falha, mas facilmente dialogada se tratasse de pessoa sana.

Há uma atitude implacável de sua parte mesmo de aumentar a falha alheia a fim de humilhar ainda mais que quer que seja.

Pergunta, como uma pessoa dessa passa no teste psicológico para ser contratada?

Por que existe espaço para esta figura opressora, que os colegas chamam de puxa-saco pentelho, mas que me limito a considerar como pessoa carente de afeto, de sentido de amizade? Ela prega o discurso oficial, o politicamente correto que figura na fala dos supervisores, mas trata as pessoas como se fossem lixo. Por que nós profissionais toleramos uma rabugenta como esta? No que a gente lucra? Por que não dizemos não a pessoas como ela? Se a empresa fosse particular e ela a proprietária vai lá, mas é um órgão público, nós estamos lá por nossa competência, por passar num concurso público, pela faculdade concluída, e, sobretudo, por nosso comprometimento em servir bem.

Para selar o cúmulo da pretensão, logo após voltar de férias, há uns dois meses, em vez de nos cumprimentar, veio logo deixando crer que a empresa por pouco não parou no tempo que ela esteve fora. Que bobeira! Como se ela morresse amanhã esta empresa com mais de 50 anos de existência fosse parar. É a fala mais patética de quem se acha, que pensa que tem o rei na barriga, ou que desqualifica toda uma equipe por puro pedantismo.

Será que ela é tão forte assim ou somos nós uns covardes a ponto de achar que sequer podemos mudar a realidade a nosso alcance? O líder deve acima de tudo respeitar as pessoas, ser solidário. Cobrar regras e normas é salutar, necessário. Transparecer mediocridade, puxa-saquismo e falta de respeito denota espírito ruim.

Quem sabe estou sendo exagerando. Poder ser que ela pense que está fazendo o melhor, porque para mim é impossível existir pessoa tão mesquinha e que queira subir às custas de pisotear os sentimentos dos seus colegas. Não, eu devo estar exagerando.