segunda-feira, 6 de julho de 2009

A crônica nossa de cada dia ( Luiz Carlos Amorim )


Gosto de ler e admiro o escritor que consegue ser objetivo, com vocabulário claro e apropriado, sem se perder em excessos narrativos e descritivos ou no emprego de palavras rebuscadas e fora de uso.

Sempre fui leitor crônico de romances, contos e poemas e descobri, há algum tempo, a crônica. Adoro a crônica, mas detesto aquelas massudas, extensas, esticadas demais, quando poderiam ser bem mais enxutas, elegantes, se dissessem apenas o necessário para transmitir a sua mensagem.

Há quem pratique o gênero e ache que escrever bem significa produzir textos imensos, perder-se em divagações inúteis sobre um determinado tema. E ainda usando “palavras difíceis”, na ilusão de que isso enriquece o texto. Isso me lembra de um “escritor” que conheci – e que felizmente não escreve mais ou, pelo menos, não tem publicado – que escrevia a sua crônica e depois de pronta, ia ao dicionário e trocava umas quantas palavras usuais e inteligíveis por outras, fora de uso e desconhecidas. Ele achava que isso transformava o seu texto em grande obra. Ora, o texto já era ruim: tema mal definido, mal desenvolvido, com vocabulário simples, quase vulgar, pouco conhecimento de regras gramaticais. Imagine um texto assim, salpicado de “palavras difíceis”. Se esse “escritor” produzisse poesia, com certeza usaria rima – e seria uma rima muito pobre!

Mas, como dizia, gosto do texto claro e saboroso, rápido mas denso, com conteúdo, aquele que diz apenas o necessário para comunicar com eficiência. Um texto não precisa ser extenso para ser bom. E se ele for mais longo porque havia necessidade disso, por imposição do tema, do desenvolvimento do assunto, sem deixar de lado a objetividade e a dinâmica da palavra, deverá ser interessante e gostoso de ler como se fosse curto.

Comunicar idéias é ser conciso, claro, com linguagem atual e bem articulada, é conversar com o leitor sem menosprezá-lo, sem querer apenas impressioná-lo. É colocar temas em discussão contando a sua verdade, aceitando que ela pode ou não ser a verdade do leitor, e assim dar oportunidade para que novas idéias venham à tona.

A nova literatura ( Luiz Carlos Amorim )


A literatura é uma arte que tem fortes representantes em Santa Catarina. Talvez não seja correto rotular a literatura produzida aqui como catarinense, mas ela tem autores com qualidade e representatividade.

A projeção catarinense na literatura brasileira começa com o ícone maior da poesia simbolista, Cruz e Sousa, nascido em Florianópolis, antiga Desterro, de reconhecimento universal, ainda que póstumo. Sua poesia foi traduzida e publicada em vários países.

A perfeição dos poemas de Cruz e Sousa já fez com que o comparassem a Baudelaire e o colocassem ao lado de Mallarmé.

Seguem-se-lhe Virgílio Várzea, que publicou em parceria com Cruz e Sousa “Tropos e Fantasias”, a estréia do Cisne Negro na literatura, e Luiz Delfino.

Existem, também, os escritores catarinenses contemporâneos, aqueles que já têm uma obra conhecida e consolidada e ultrapassaram as fronteiras do nosso estado. Alguns deles projetaram-se em nível nacional, mas nem sempre estão radicados aqui no estado. Nomes como Lindolfo Bell, Guido Wilmar Sassi , de grata memória, Cristóvão Tezza, Deonísio Silva, Silvio Back, Werner Zotz, são exemplos de escritores catarinenses de renome nacional.

Existem os contemporâneos do estado, que se concentram, quase todas na capital, mas não é deles que o livro “A Nova Literatura Catarinense”, em lançamento, fala. Uma nova edição da obra, atualizada, estará sendo publicada e colocada à venda pelo Clube de Leitores ( www.clubedeleitores.com.br ) nos próximos dias.

No livro estão os escritores que produzem em outros pontos de Santa Catarina, que têm sua obra publicada, têm uma bibliografia considerável, em quantidade e qualidade, têm livros com várias edições, apesar de não estarem, a maioria deles, aparecendo nas vitrines ocupadas pelas figurinhas carimbadas.

Nomes que começaram e ainda estão no Grupo Literário A ILHA, ou transitaram por ele, como Apolônia Gastaldi, Else Sant´Anna Brum, Enéas Athanázio, Joel Rogério Furtado, Maicon Tenfen, Eloí Elisabet Bocheco, Rosângela Borges, Urda Alice Klueger, Viegas Fernandes da Costa, Wilson Gelbcke, Harry Wiese, Selma Maria Franzoi, Aracely Braz, Maria de Fátima Barreto Michels e tantos outros.

São os escritores que se impõe por seu talento, dedicação e perseverança e vão se revelando bons cultores da palavra, conquistando respeito e reconhecimento pelo mérito de sua obra.

Saudade ( Luiz Carlos Amorim )


Não quis dizer solidão. É que o inverno chegou e uma saudadezinha escondida insiste em levantar a voz. Saudadezinha doída, vem me lembrar, atrevida, que amor a gente não esquece. Que cada carinho é um carinho, que cada ternura é só uma, que amor não morre jamais.

E eu preciso de você. Porque gosto de você. Sei que já disse isso, mas eu gosto de você. Junto de você, gosto do frio que aconchega, gosto da chuva lá fora, a ninar nossos sonhos. E gosto do seu sorriso.

Seu sorriso, minha musa, é minha casa, o meu mundo, o meu tudo. É minha luz, porto seguro, o meu horizonte, infinito. Seu sorriso é minha vida.

Seu sorriso é boa vinda, é ternura do aconchego, é calor que me aquece. Seu sorriso é primavera que se espalha por seu rosto e sorri a sua boca e sorri o seu olhar e sorri seu coração e sorri a sua alma...

Ah, o seu sorriso... é meu ponto de partida e meu ponto de chegada...

Como vou fazer poesia, se o seu sorriso tão meigo é o verso mais bonito que jamais vou escrever? Minha poesia é você. Pra que então escrevê-la? Fiz-me poeta em você, poeta em seu amor... Vem comigo, minha musa, vem morar neste poema...

Este poema, seus olhos, imenso poema de amor. Vejo nós dois espelhados, nos grandes lagos castanhos cristalinos, os seus olhos. Navegamos mansamente, nas serenas águas claras, cheias de luz e poesia. É nossa grande viagem, percorrendo os caminhos que nos levarão de encontro à descoberta de nós.

Então vem, e afugenta a saudade vadia, que passeia insistente, pelo fundo dos meus olhos. Vem mandar embora essa saudade que brinca com a tristeza que transcende o meu olhar, tentando invadir meu coração para matar todas as flores que você desabrochou em mim...

Os livros recolhidos e a desculpa do estado ( Luiz Carlos Amorim )


Sou obrigado a voltar ao assunto. Lembram do meu artigo sobre o escândalo dos 130.000 livros comprados pelo Estado de Santa Catarina, por um milhão e meio de reais e que depois foram recolhidos? Pois é, a história estava mal contada e continua sem explicações.

Li, em 2 de junho, uma matéria de grande jornal sobre a polêmica do recolhimento, pelo Estado, dos 130.000 livros que haviam sido comprados e distribuídos às escolas públicas de segundo grau.

Nessa mesma matéria, há a informação de que “a compra dos livros ocorreu por meio da lei que determina que o Estado adquira livros de autores da terra, selecionados pela Comissão Catarinense do Livro, para bibliotecas municipais catarinenses.”

Há que se esclarecer alguns pontos sobre essa afirmação prestada ao jornal. Primeiro, a lei Grando, que é a lei mencionada, não foi cumprida até agora, apesar de ter sido promulgada há quase vinte anos. Segundo, para comprar livros através dela é necessário que se publique o edital para seleção dos livros a serem comprados. E o primeiro edital da Cocali para começar a cumprir a Lei Grando só está saindo publicado agora, com início de inscrições no dia 8 de junho. Terceiro, o edital é para aquisição de 300 (trezentos) exemplares de dez obras que serão selecionadas e não 130.000 (cento e trinta mil).

Como já perguntei em outro artigo, desde quando o Estado compra livro indicado para o Vestibular para cada um dos alunos do segundo-grau da escola pública catarinense?

De quem partiu a idéia de comprar essa quantidade imensa de exemplares de uma mesma obra, sem ao menos lê-la para saber se era apropriada, provocando o recolhimento e transformando em pó um milhão e meio de reais, dinheiro tirado do imposto suado pago pelo cidadão catarinense? Quem autorizou esse gasto? E a tal licitação, que foi citada pela Secretaria de Estado da Cultura em todos os jornais, há alguns dias, dá a idéia de que havia pelo menos três editoras publicando e vendendo o livro, o que não é verdade. A editora é uma só.

Então toda essa história está muito mal contada. Usar a Lei Grando como desculpa não está colando.

O Estado e o escândalo dos 130.000 livros ( Luiz Carlos Amorim )


Eu já ouvira alguma coisa na televisão, ontem, mas pela metade. Então hoje, ao abrir o jornal, encontrei a reportagem sobre o livro de Cristóvão Tezza, que foi recolhido das escolas pelo Estado. O livro “Aventuras Provisórias”, que tinha sido comprado pela Secretaria de Estado da Educação de Santa Catarina e distribuído às escolas estaduais de ensino médio, foi recolhido por conter trechos considerados inadequados a alunos do segundo grau.

Até aí tudo bem, Cristóvão Tezza é um escritor de renome nacional, consagrado, mas se alguma coisa no livro não é apropriado aos estudantes do ensino médio, se o livro é indicado para adultos, que se use bom senso. O autor, catarinense, não precisa mais que o Estado compre tiragens inteiras do seu livro, porque ele vende por si próprio.

O que nos deixa indignados é o fato de a Secretaria de Estado da Educação ter comprado 130.000 (cento e trinta mil) livros, pela bagatela de Cr$ l.500.000,00 (um milhão e quinhentos mil reais), quando os escritores catarinenses vêm batalhando há quase vinte anos pelo cumprimento da famigerada Lei Grando, instituída pelo próprio estado. Essa lei determina que o estado compre livros de autores da terra, previamente selecionados pela Comissão Catarinense do Livro, para distribuição às bibliotecas municipais catarinenses. A referida lei regula a obrigatoriedade da compra, pelo estado, de 300 (trezentos) exemplares de 22 (vinte e dois) livros publicados por autores catarinenses, a cada ano, adquiridos com 50 % (cinqüenta por cento) do valor da capa.

Então, para cumprir a Lei Grando, não há verba, não coube no orçamento, ano após ano. Mas para comprar cento e trinta mil livros a um milhão e quinhentos mil reais, aí sim, deu. E sem nenhuma divulgação, porque não vi em lugar algum notícia sobre a compra.

E desde quando o estado de Santa Catarina compra livros selecionados para o vestibular, aos milhares, para distribuir aos estudantes da rede estadual de ensino médio?

E não venham usar como atenuante o fato de a Fundação Catarinense de Cultura estar para publicar edital da Cocali, para aquisição de livros de autores catarinenses e posterior distribuição dos mesmos para bibliotecas municipais, começando, assim, a cumprir, finalmente, a lei que já quase completa maioridade, sem sair do papel.

Enquanto o escritor catarinense mendiga o cumprimento da Lei Grando para ter a possibilidade de que o estado compre a sua obra e faça chegar pelo menos um exemplar a cada biblioteca pública de cada cidade de Santa Catarina, esse mesmo estado compra, silenciosamente, cento e trinta mil livros de uma mesma obra, de um mesmo autor, para cada estudante do nível médio. Livro que em seguida foi recolhido. O que será feito deles? E todo aquele dinheiro pago por eles é imposto pago pelo contribuinte. Que estado é esse? Que educação é essa? Que cultura é essa?

Contatei com escritores catarinenses importantes, como Urda A. Klueger e perguntei se o Estado alguma vez comprou-lhes livros. Ela me confirmou que não, coisa que eu já sabia, pois estamos esperando pelo acionamento da Lei Grando.

Nada contra o escritor Cristóvão Tezza, um autor que honra a literatura de Santa Catarina, mas há que haver justiça, há que haver transparência e coerência na administração pública catarinense.

A rota das cachoeiras de Corupá ( Luiz Carlos Amorim )


Fiz, finalmente, a rota das cachoeiras de Corupá, nordeste de Santa Catarina, no final de abril. Apesar do pouco volume de água, em razão da estiagem na região, a beleza que transborda os olhos e a alma da gente é incomensurável. Eu já tinha ido até a terceira cachoeira, quando a rota era mais íngreme, mas agora pude visitar quase todas.

A primeira cachoeira, que podemos ver sem começar a subida da trilha é a dos Suspiros, belíssima. A segunda, Cachoeira da Banheira, por ter uma verdadeira piscina na sua base, também é bem grande e extasia o visitante. A terceira é a Três Patamares, quedas menores em seqüência, nem por isso menos belas. Pousada do Café é a quarta cachoeira e tem esse nome porque é onde os turistas param pela primeira vez para fazer um lanche e admirar a beleza das águas. A quinta, Cachoeira do Repouso, tem esse nome porque conta com uma grande lage de pedra ao seu lado, onde se pode parar para descansar e aproveitar o espetáculo que se descortina diante dos olhos.

Cachoeira do Remanso é a sexta delas, com pouca altura, suas águas caindo tranqüilas formando outra piscina. As sétima e oitava cachoeiras são duas cachoeiras que se encontram e por isso chamam-se Cachoeiras da Confluência. A nona cachoeira é a da Corredeira e tem esse nome porque são quedas em degraus, menores. Talvez porque a água não escorra pela rocha, descendo em queda livre e caindo sobre a base ou porque o terreno é acidentado e possa derrubar o visitante, a décima é a Cachoeira do Tombo. Cachoeira do Palmito é a décima primeira e o nome lhe foi dado devido a um palmiteiro que se curvava sobre a grande queda d´água. A décima segunda é a Cachoeira Surpresa, pois aparece de repente, logo após uma curva no caminho, revelando um dos mais belos espetáculos da rota.

Não consegui ver a décima terceira, a Cachoeira do Boqueirão, porque estava fechada. E então andamos, cansados, mais um bom tanto de caminho para que então se descortinasse frente aos nossos olhos a décima quarta, a Cachoeira do Salto Grande, com 125 metros de queda livre.

Valeu o cansaço da subida, pois a beleza que se vê é alguma coisa fantástica, que excede qualquer expectativa.

Infelizmente, não dá para falar apenas das belezas das quedas d´água, quatorze delas, uma mais bela do que a outra. O parque Rota das Cachoeiras é uma reserva natural, mas pertence ao Grupo Battistela, é particular. Há quatro anos, começaram a cobrar ingresso para aqueles que quisessem visitar o lugar, fosse para fazer a trilha das cachoeiras ou apenas visitar a primeira, que fica na base da rota e não é preciso subir para vê-la. Perguntei ao rapaz que ficava na entrada do parque para conferir os ingressos, o que era feito com o dinheiro arrecadado. Ele me disse que todo o dinheiro é usado na manutenção do parque. Eu perguntei a ele em que manutenção. Porque a impressão que se tem, antes de começar a subir a trilha, é que aquilo está abandonado.

O restaurante que havia lá em cima, na base da trilha, não existe mais. Nem a janelinha onde vendiam água mineral e refrigerantes. Os quiosques que poderiam estar oferecendo lembranças da região, camisetas, artesanato, comidas típicas, sei lá mais o que, estavam todos fechados, e não é de agora. A área de churrasqueiras, com mesas e bancos, está lá, em pé, mas o madeirame está apodrecendo. Os banheiros, pelo menos os dos homens, estavam em obras. Mas mesmo as pias e mictórios, que deveriam estar funcionando, estavam todos entupidos, transbordando. Soube que o banheiro das mulheres estava parecido.

Quiosques que existiam pelo mato, com infra-estrutura para se fazer um churrasco, estão no chão, o material empilhado apodrecendo no tempo.

A trilha, até a quarta cachoeira está uma beleza, tem degraus para a subida e até corrimão para maior segurança dos turistas. Mas depois da quarta cachoeira a segurança já não é mais tanta e o visitante cansado tem que tomar cuidado para não escorregar, senão cai pela ribanceira. A 13ª cachoeira está fechada há semanas e não há indicação do que aconteceu ou quando vai ser reaberta.

Então que manutenção é essa? Antes de cobrarem ingresso o parque era mais cuidado.

É uma pena que não se explore todo o potencial turístico da região. Para se ter uma ideia, naquele domingo em que estivemos lá havia centenas de pessoas pagando ingresso. A cinco reais cada uma, o valor arrecadado só naquela oportunidade daria para fazer muita melhoria no lugar.

A natureza tem queda por Corupá. Mas parece que algumas pessoas não estão percebendo isso e já faz muito tempo.

Os melhores amigos ( Luiz Carlos Amorim )


Pituxa, a nossa pinscher Xuxu, tem quatorze anos. Quase não enxerga mais, talvez já não ouça bem, também. Mas é a nossa menina. Quando a gente está em casa, ela está sempre procurando alguém em quem se encostar. Não reconhece a gente de pronto, quando chegamos em casa, mas faz uma festa quando ouve a nossa voz.

Ocorre que eu e Stela viajamos e ficamos quase um mês fora. Fomos a Portugal, para conhecer a terrinha e sempre mantivemos contato com as filhas, que ficaram em casa. E soubemos que Pituxa não comeu por três dias, depois que saímos. Mas isso não foi o pior: ela ficou dias a fio de plantão, sentadinha em frente ao portão da garagem, esperando que chegássemos. Dava vontade de voltar, ao saber disso.

Quando chegamos ao aeroporto de Florianópolis, ela estava lá esperando, junto com o resto da família. Ela não deve ter entendido porque ficamos tanto tempo longe, mas agora fica mais desesperada quando a gente começa a arrumar malas para viajar.

Não resisti ao registro do fato, pois encontrei um outro bichinho parecido com Xuxu em Coimbra e queria poder falar dela também. Tratava-se um uma chiuaua (ou chihuahua), de pelo avermelhado, pequena, devia pesar um dois ou três quilos. O seu dono era um tocador de violão que, enquanto tocava, colocava-a sentada a sua frente, imóvel, com um porta- -moedas pendurado no pescoço. Havia uma cesta, também, para quem não quisesse colocar as moedas a fazer peso no pescoço da cachorrinha. Ela era mantida em uma coleira e de vez em quando o dono a puxava, para mudar de local e de público. Perguntei a idade dela e ele me disse que ela tinha nove anos. Perguntei se era mansinha, se podia fazer um carinho, ele disse que sim. Tentei passar a mão em sua cabeça, ela até deixou, mas encolheu-se, assustada, como se eu fosse machucá-la. Não falei nada, mas pensei que ela poderia ter sido maltratada para se submeter àquele trabalho. Espero estar errado.

Fiquei comparando a nossa Pitucha, cercada de tanto carinho, com aquela cadelinha que era obrigada a trabalhar. E imaginei a chiuaua (ou chihuahua) na rua, com os dias frios que estavam por vir em Portugal, que agora está na primavera, mas já conta com algumas temperaturas que exigem agasalho. E olhem que a menininha ajudava o rapaz a ganhar a vida.

Portugal, Terra irmã ( Luiz Carlos Amorim )


Estive alguns dias em Portugal, coisa que tinha o desejo de fazer há um bom tempo. Passeei por Lisboa, Cidade do Porto, Coimbra e outras cidades menores. Fiquei impressionado pelas partes antigas das cidades, com a belíssima arquitetura, com a manutenção de tudo. A parte nova ou moderna de Lisboa me encantou, pelo toque futurista, como na entrada da estação Oriente do metrô. As pessoas, em geral muito educadas, são às vezes mais expansivas, como o brasileiro, deixando-nos muito à vontade.

Conversando com moradores de Lisboa e da Cidade do Porto, percebi algumas diferenças na maneira de falar. Notei que algumas pessoas puxam mais pelo xis, como no caso de palavras que tem sc, por exemplo “nascer”. Mas isto é apenas curiosidade.

O que me chamou atenção, mesmo, foi a não adesão dos portugueses, ainda, ao Acordo Ortográfico. A começar pela fala cotidiana, passando pela televisão (não ouvi rádio) e até mesmo nos jornais. A acentuação gráfica continua sendo usada como era antes e o “c” e o “p”, por exemplo, de palavras como “actual” e “óptimo”, que com a nova ortografia caem, continuam sendo falados e escritos.

Aliás, os portugueses demoraram mais do que qualquer outro país lusófono a assinar o novo acordo e pelo que ouvi em conversa por lá, eles não viam e não vêem com bons olhos a reforma. No Brasil, onde as mudanças são menores, achamos que a reforma era desnecessária, imagine-se Portugal, onde a reforma é mais ampla.

Existem muitas palavras corriqueiras no vocabulário português que têm outro significado aqui no Brasil ou que não são usadas por nós. Como o caso de “fila”, existem muitas outras palavras. Então fico imaginando que a unificação da língua portuguesa, objetivo da reforma ortográfica, nunca vai se efetivar, não sei se felizmente ou infelizmente.

E já que falamos em jornal, li os grandes jornais portugueses e não pude deixar de verificar alguma diferença em relação aos nossos. Os jornais de lá são grandes, têm muitas páginas, mas tudo é informação, é notícia. Não tem muito aquela coisa de coluna social, por exemplo, que lotam os cadernos de variedades por aqui. Para assuntos como televisão, cinema, música, teatro, arte enfim, alguns deles publicam revistas, que vêm encartadas, fazendo parte da edição normal do jornal.

Gostei das livrarias em Portugal, elas existem lá mais do que aqui e são bem amplas. O preço, convertendo os euros para cruzados, é mais ou menos igual. Vi que as pessoas lêem bastante. Havia gente lendo no metrô, no ônibus, em praças...

Saindo das letras e enveredando pela gastronomia, não dá pra deixar de falar no pão que se faz em Portugal. É uma variedade grande de pães e todos eles são muito gostosos.

No mais eu quis comer bacalhau, enquanto estava lá. Em Lisboa, os pratos de bacalhau são praticamente os mesmos em qualquer lugar que se vá e, como aqui no Brasil, não tem muito bacalhau, o que tinha mais era batata. Bolinho de bacalhau é mais difícil de encontrar do que aqui, e não se chama bolinho, mas pastel de bacalhau. E também tem pouco bacalhau, pelo menos os poucos que encontrei, procurando muito. Já em Coimbra comi um bom bolinho de bacalhau e um excelente prato à base de bacalhau. O queijo feito com leite de cabra, de vaca e de ovelha é excelente. E o pastel de Belém também.

No mais, tomei muito vinho. Vinho verde, vinho do porto, vinho de todos os tipos e de muito boa qualidade. E naveguei no Tejo. Só não encontrei lá em Lisboa a minha amiga escritora Apolônia Gastaldi, brasileira aqui de Santa Catarina, que agora mora lá, mas acho que coincidentemente ela tinha vindo ao Brasil na mesma época em que fui para lá.

O Livro e a Internet ( Luiz Carlos Amorim )


Ouvi, há bastante tempo, num telejornal, uma notícia que me deixou feliz, mas ao mesmo tempo descrente: a venda de livros infanto-juvenis, no Brasil, subiu 50% (cinqüenta por cento!). Só que este índice fabuloso, segundo a notícia, era creditado à Internet. E foi este crédito que tornou discutível a informação. Está certo que a Internet facilita a divulgação de quase tudo o que é publicado, tanto no suporte tradicional, o livro impresso, como em outras mídias, proporcionando maiores opções de escolha. Mas daí a dizer que foi ela quem provocou um aumento tão significativo nas vendas, pode caracterizar algum exagero.

A Internet é um recurso tecnológico valioso na pesquisa de qualquer assunto e uma ferramenta insubstituível nos dias atuais. Mas é sabido, também, que os adolescentes que têm acesso, não vão à rede procurar novos títulos para ler, com raras exceções.

Eles participam de bate-papos em salas de chat, no orkut, skype e outros programas de comunicação, participam de jogos on-line, capturam e trocam músicas, navegam ao sabor dos sites. O que é natural, diga-se de passagem, mas isso ocupa um tempo que poderia ser usado para ler, por exemplo. É, portanto, temeroso, creditar à Internet o crescimento do índice de leitura em crianças e adolescentes.

Acredito que o índice de cinqüenta por cento no incremento da venda de livros infanto-juvenis pode ser correto, pois como já escrevemos em outra oportunidade, o que vimos nas últimas Bienais do Livro (e muitas feiras do livro) ajuda a corroborar isto: famílias inteiras foram à feira, pagando ingresso para poder comprar livros e saíam de lá sempre com algum título nas mãos. E quando digo famílias inteiras, quero dizer pais com os filhos – crianças, jovens, adolescentes.

Interessante que, poucos dias depois de ouvir essa notícia, leio numa dessas revistas semanais de informação, uma matéria de capa a respeito de pesquisa sobre leitura, que veio de encontro àquilo que havíamos concluído: o brasileiro gosta de ler. Ele pode até não ter dinheiro para comprar livros, mas gosta de ler.

De acordo com a pesquisa, 78% de cinco mil, quinhentos e três pessoas consultadas em quarenta cidades brasileiras, gostam de ler livros – e há que se considerar que esta é uma esmagadora maioria daqueles que responderam ao que foi perguntado.

Outra descoberta interessante é quanto aos gêneros preferidos por esse índice de 78 % das pessoas entrevistadas, que tinham idade a partir de quatorze anos. Vinte e nove por cento prefere a literatura classificada como adulta pela pesquisa, onde se inclui ficção, história da literatura, ensaios, poesia.

A literatura infanto-juvenil quase não aparece nesta pesquisa, pois os entrevistados tinham a partir de quatorze anos: apenas quatro por cento. Mas se as vendas dos livros infanto-juvenis cresceram cinqüenta por cento – e sabemos que este gênero é um dos que mais vende, nos últimos tempos – em se baixando o limite de idade para sete anos ou menos, na referida pesquisa, o índice seria muito maior.